Ter, 29/05/2007 - 10:34
Mulher de rija têmpera, enfrentou, desde o início do século passado, uma vida de luta árdua verdadeiramente notável. Ajudou a criar dez irmãos, antes e depois do falecimento precoce dos pais, e lançou mãos de homem a uma casa de lavoura onde só o trabalho árduo do nascer ao pôr-do-sol permitia arrancar da terra o sustento do dia-a-dia.
Tamanha generosidade com os outros levou a que ficasse solteira, para que nada faltasse à legião de irmãos que ajudou a sustentar e a cuidar. Mais tarde, já a aproximar-se do meio século de vida e quando o desconforto da solidão lhe adivinhava dias mais sombrios, a natureza brindou-a com um dos seus milagres mais geniais: o nascimento de um filho.
E daí em diante, já sem irmãos para cuidar, os anos que lhe sobraram entregou-os por inteiro a essa generosa dádiva da natureza: Manuel António Fernandes, emigrante respeitado, que os amigos tão bem conhecem e admiram como o “Manel Geirinhas”, e que arrancou literalmente do nada, com uma vida de trabalho honesto e duro na Alemanha, uma das maiores fortunas da sua aldeia. Hoje, indubitavelmente, um dos melhores modelos do transmontano da diáspora.
Quanto à “tia Lucrécia”, carinhosamente cuidada em casa de seu filho, as mesmas mãos com que há cerca de 80 anos carregava os carros de estrume, são hoje as mãozinhas de fada, inocentes e prodigiosas, com que, teimosamente, faz as meias de lã na esperança de que farão jeito a alguém no próximo Inverno.



