Ter, 08/05/2007 - 10:47
Olhando para o programa do espectáculo e para os títulos das canções, antes do concerto começar, uma pessoa minha amiga teve esta exclamação iluminada: “Se o Presidente da Câmara aqui estivesse, eu pediria à Anabela Duarte que lhe dedicasse o poema de Boris Vian, Le Déserteur” (O Desertor). Pois. Boa! Mas o Presidente da Câmara estava ausente. Imaginei-o preparando a Sessão Solene do Dia 25 – o que é pena, porque terá ficado nos munícipes a ideia de que o trabalho de casa é deixado para a última, além de que ouvir Anabela Duarte cantar é um privilégio que nem sequer um autarca deveria deixar escapar. E, por isso, o Presidente da Câmara perdeu um momento inesquecível que o teria levado a olhar para a canção mais séria do politicamente incorrecto escritor e saxofonista francês Boris Vian, musicada por Harold Berg.
“Sr. Presidente, escrevo-lhe esta carta que o senhor talvez leia, se tiver tempo” afirma, com ironia amarga, o homem que acaba de ser mobilizado para partir para a guerra “ainda antes de quarta-feira à noite”. Mas essa guerra, ele não a quer fazer, porque diz que não está no mundo para matar uns quantos desgraçados iguais a si. E continua: “a minha decisão está tomada. Sr. Presidente, não é para se zangar, mas tenho de lhe dizer que vou desertar”. E explica: “desde que nasci, vi morrer o meu pai, vi partir os meus irmãos, vi chorar os meus filhos. A minha mãe sofreu tanto que lá, na sua sepultura, está-se a borrifar para as bombas e para os vermes”.
E nesta frase, jogando com o real e o simbólico, Vian resume o absurdo com que a guerra formata os homens e do qual só a morte os liberta. Denunciando a hipocrisia dos poderosos que, como bons apóstolos do seu próprio evangelho, vão pregando, conscienciosamente, a força do sangue alheio por derramar: “se é preciso dar a vida, Sr. Presidente, então dê o senhor a sua”.
E Vian continua, num tom de desespero organizado, como uma viagem planeada sem fim: “Vou mendigar a minha vida nas estradas de França, da Bretanha à Provença. E vou gritar às pessoas para que se recusem a obedecer, para que se recusem a partir para a guerra, para que se recusem a ir embora”.
E com a coragem desassombrada dos que não têm já nada a perder, Vian termina, informando o Sr. Presidente de que se mandar os seus guardas persegui-lo, deve preveni-los de que ele não estará armado e que poderão disparar. O que constitui, nesse ano de 1954 – em que a França se dispõe, furiosamente, a esmagar a vontade independentista da Argélia – uma manifestação de luta pelo pacifismo e de recusa do pronto-a-pensar pseudo-nacionalista com que a ideologia institucional abafa a livre singularidade de cada ser humano.
Em 1966, José Mário Branco traduziu “Le Déserteur” e adaptou-a à realidade da Guerra Colonial, cantando-a pela Europa fora, até 1974: “Ao senhor presidente / e chefe da nação / escrevo a presente / para sua informação / recebi um postal / um papel militar / com ordem pra marchar / prá guerra colonial / (…) à guerra dizei ´não`! / a gente negra sofre / e como nós é pobre / somos todos irmãos”. Mas, contrariamente à versão final de Boris Vian, não faz o adeus às armas; antes manifesta o desejo de marcar uma revolta que não é feita só pelas palavras: “ se me mandar buscar / previna a sua guarda / que eu tenho uma espingarda / e que eu sei atirar”.
Hoje, em 2007, aqui em Bragança, a descer a “moderna” e feia e asséptica Avenida das Forças Armadas, penso noutra adaptação das palavras de Boris Vian.


