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Salazar em Bragança II

Qua, 02/05/2007 - 11:42


Em 1962, a solidão no meio das pessoas imperava na cidade. Encontrava refrigério na Biblioteca Itinerante, durante uns meses dirigida pelo poeta surrealista Barahona da Fonseca, mas ele não aguentou o isolamento e foi substituído pelo Dr. Marinha de Campos. Tratava-se de um homem a rondar os sessenta anos, agarrado a um passado onde avultavam marcas de tortura, anos na prisão e dezassete de residência fixa em Mértola. De poucas falas, concedia um riso escarninho aos reviralhistas bragançanos. O campeonato dele era outro – participação numa revolta, agitação, propaganda e muitos actos de resistência ao salazarismo. Na consequência de uma denúncia teve de se transferir para Mirandela, onde morreu.

A ocupar o lugar apareceu um alentejano, Santana Alho, também fichado pela PIDE e antigo aluno de Marinha de Campos. A minha vivência era ler, ler, ouvir, inspirar e esperar. Em Setembro, dia 1, começo as saudosas e refulgentes itinerâncias culturais. Em termos de vida era orientado pelo fiel e seguro António Barril. Politicamente reinava a inércia, a dada altura quebrada pela entrada em cena de Domingos da Ponte, advogado, vindo de Coimbra, amigo de partilhar, estuante de energia e que me põe em contacto com o famoso Buda. Todos tínhamos em comum as raízes – Vinhais. O Buda personalidade fascinante, surge em Chaves em 68, estava lá antes de ir para a guerra colonial, pede-me para vigiar movimentos de polícias, enquanto ele e outros faziam passar a fronteira a um activista, mais tarde ministro, deputado e outras coisas mais. O Buda padecia de uma terrível doença, morreu apagado, teve apenas uma nota obituária escrita por José Carlos Vasconcelos. No final de 1963, conheço um padre, alta figura do clero português nos tempos de hoje, que será a minha sombra tutelar nos terrenos da política, ensina-me a percorrer o caminho meditando no erro cometido, da inutilidade de gestos ou actos temerários, aconselha-me prudência. Debalde. Na altura, 1964 as conversas cantineiras no Flórida, Moderno ou Central versavam vacuidades moldadas por engates e paixões. Distinguia-se o Sr. Lima bancário no Totta; ao jogo das moedas e das cartas preferia a reflexão política, deu-me a ler a Seara Nova e a Vértice. Fiz-me assinante da revista seareira, depois do 25 de Abril percebi mais este erro – a correspondência dirigida à Seara Nova passava pelo crivo da PIDE, daí ganhei um início de processo, um pedido de informações à PSP que o bondoso subchefe Rodrigues me mostrou, ter caído numa provocação montada pelo “Padre Mota”, e à conta receber umas pancadas na noite de S. João. Outros erros iria cometer, anos depois, pelos quais paguei na devida conta, provocando desgostos e aflições ao Padre amigo para sempre. A pacatez da cidade estava assente no compromisso assinado pelos funcionários, de não envolvimento em actividades subversivas, na flatulência verbal dos apaniguados da União Nacional, na vigilância no domínio das ideias por parte de um membro do clero, no riso regougante dos tontos e idiotas tidos como gente capaz e séria, nos berros esganiçados e gordurosos dos desprovidos de coluna vertebral. Riscava o tédio político lendo tudo quanto havia para ler, mais os livros do Vilhena guardados pela Sra. Maria “do Guedes” e os vendidos às escondidas pelo Nuno Vaz, na Papelaria Cristal. No referente pseudo opositores aos costumes diziam nada, esforçavam-se por serem benquistos, sendo mais eloquente enquanto propósito, o facto de nos envelopes do Sr. Júlio Coelho prevalecer a indicação de praça Almeida Garrett, do que Praça da Sé. Já não estava impaciente, politicamente nada a fazer a não ser estudo, indicava-me o tutor. Mais tarde percebi o alcance de tão douto conselho. Em 1967, abandonei a cidade, no ano seguinte o manhoso Botas cai da cadeira, chegou a Primavera marcelista e com ela veio o travesti político, a PIDE deu lugar à DGS, a UN passou a denominar-se ANP, possibilitando adesões surpreendentes apenas para os distraídos e impossibilitados de perceberem a razão de tamanha incoerência. Após o 25 de Abril, vim a Bragança, os “anti-fascistas de sempre” acotovelavam-se numa esquina da Sé, os “democratas desde o berço” empurravam-se noutra. Antes de correr o risco de ser catalogado de reaccionário, optei por zarpar rapidamente. Antes fui dar um abraço ao Sr. Pereira da Livraria, ao sócio António Reis e o seu irmão Zé. Em 2007, Salazar regressou! Mas em liberdade!

Armando Fernandes