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Passaporte para uma viagem literária

Ter, 24/04/2007 - 10:16


ERNESTO José RODRIGUES (Torre de Dona Chama, 1956) é Doutor em Letras pela Universidade de Lisboa (1996), na especialidade de Cultura Portuguesa, onde é Professor Auxiliar.

Foi antigo jornalista (1979-1981), leitor de Português na Universidade de Budapeste (1981-1986), assistente da Escola Superior de Educação de Bragança (1986-1988) e professor / coordenador de curso no ISLA – Bragança (1998-1999).
Personalidade multifacetada e incontornável do panorama literário português, com uma participação activa nos estudos literários, Ernesto Rodrigues é, como se define, poeta, escritor, tradutor, historiador da literatura, crítico e ensaísta literário, professor, jornalista, cronista, memorialista e dramaturgo.
Poeta estreado em 1973, editou Inconvencional, J. C. Falhou Um Penalty (em colaboração, 1976), Poemas Porventura (1977), Março ou as Primeiras Mãos (em colab., 1981), Para Ortense: Variantes (1981), Sobre o Danúbio (1985), Ilhas Novas (1998), estando, ainda, presente numa dezena de colectâneas.
Na ficção, e afora antologias, deu Várias Bulhas e Algumas Vítimas (1980), novela reeditada em A Flor e a Morte (1983), seguindo-se os romances A Serpente de Bronze (1989) e Torre de Dona Chama (1994). Dirigidas à infância, escreveu Histórias para Acordar (1996).
Faz crítica literária regular desde 1979 e tem várias colaborações poéticas, contísticas e ensaísticas. Vem prefaciando edições, que organiza, de escritores Oitocentistas, prefaciando, também, vários nomes consagrados da literatura portuguesa.
Estudioso das relações entre Portugal e a Hungria, Ernesto Rodrigues traduziu várias obras de ficção e poesia húngaras, sendo agraciado pelo Estado húngaro.
Jornal NORDESTE (JN) – O seu “Reino Maravilhoso” é o da Torre de Dona Chama?
Ernesto Rodrigues (ER) – É a Torre de D. Chama da infância – que fixei no romance Torre de Dona Chama (1994); é a Budapeste de adulto, dispersa por ficção e poesia; sobretudo, é o texto em que me empenho.

JN – Qual o título que melhor lhe assenta – poeta, escritor, tradutor, historiador da literatura, crítico e ensaísta literário, professor ou jornalista?
ER – Além de, também, cronista, memorialista e dramaturgo, basta-me ser o que sempre quis: escritor. Fui jornalista por paixão – e, desde os 14 anos, continuo ligado à Imprensa –, professor por necessidade. Reuni estas duas vidas na tese de doutoramento: Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal (1996; em livro, 1998).

JN – Escreve com o intuito de vender ou ser lido?
ER – Ao estrear-me com um livro de versos, estava ainda no 6.º ano [actual 11.º ano] do antigo Liceu Nacional de Bragança (1973), queria ser conhecido, tornar-me um caso, no meio. Ao inaugurar-me na ficção, com a novela Várias Bulhas e Algumas Vítimas (1980), procurei trazer alguma frescura – não por acaso, com assunto da nossa região – à literatura do pós-Abril. Fui reconhecido como revelação do ano. Mimado pela crítica – e vendas razoáveis, embora uma editora como a Dom Quixote, que publicitou A Serpente de Bronze (1989) na televisão e jornais, esperasse mais –, percebe-se que não escrevo para vender. Conheço, todavia, os processos e artes desse comércio, tal como a instituição literária e a fortuna, quase sempre incerta, dos que, no seu tempo, mais venderam.

JN – Quando escreve um livro, traça um hábito? E que implicações tem a escrita com a sua vida profissional?
ER - A vida universitária é muito absorvente, quando se é, também, investigador e editor literário. Dispersamo-nos. Se fosse unicamente dar aulas, era o paraíso (que vivi em Budapeste, nos meus cinco anos de leitor de Português). Assim, em férias ou em licenças sabáticas, procuro a reclusão só conseguida sobre o Danúbio: após um banho e pequeno-almoço, no silêncio da casa, abstraio-me de tudo e mal me alimento. Se não é matéria destinada a jornais, escrevo à mão, em letra miúda, sem entrelinha.
JN – Que temas procura abordar na sua criação literária?
ER – Essencialmente, questões de identidade – pessoal, nacional e europeia –, relações familiares e problemas de actualidade, caso do terrorismo ou do controlo policial exercido sobre cidadãos.

JN – Porquê o apego à cultura literária oitocentista e novecentista portuguesa, ainda mais, sendo dois períodos tão díspares?
ER – Não são díspares: a nossa contemporaneidade vem com a revolução liberal de 1820. O regime demo-parlamentar, que hoje temos, é uma construção de Oitocentos, e a tribuna paralela em que se constituiu a Imprensa escrita torna-se de massas naqueles anos 30. São, pois, quase duas centúrias em continuidade, como demonstro na dissertação de 1996 e noutros títulos: Cultura Literária Oitocentista (1999), Crónica Jornalística. Século XIX (2004), Verso e Prosa de Novecentos (2000). As leituras da adolescência atiraram-me para Garrett, Herculano, Júlio Dinis, Camilo, Eça e Trindade Coelho, que já estudei ou editei. A crítica literária regular tornou-me companheiro, leitor ou amigo de, nomeadamente, autores dos últimos trinta anos. Mas convirá dizer que o meu apego é a todos os nossos séculos, como se vê em títulos transversais – Visão dos Tempos. Os Óculos na Cultura Portuguesa (2000); Dicionário de Literatura. Actualização, 3 vols., 2002-2003 –, escrevendo, ainda, sobre vitrais, uma peça de Gil Vicente e infinidade de assuntos. A tese de mestrado, por exemplo, é sobre Fastigínia (1605), uma obra mal impressa (1911) de que há vários manuscritos, e cuja edição séria espero dar ao fim de vinte anos de labor...

JN – Um conselho para quem quer ser escritor e outro para quem quer ser jornalista.
ER – Ler. Conjugar imaginação, inventiva e o outro lado dos factos. A diferença está em que aquele procura um estilo para livro e este interioriza um livro de estilo.

JN – Faz parte do júri de vários concursos literários promovidos pelas mais diferentes instituições. Como se avalia uma obra literária? Não será sempre subjectivo?
ER – O meu gosto vive de um conhecimento da tradição literária, e não só nacional, sendo, simultaneamente, um praticante. O julgamento é menos subjectivo do que falível.
JN – Em poucas palavras, como se define como escritor?
ER – Persigo a Beleza, com que iluminar-me, e ao interlocutor. Esculpo emoções.

JN – Durante alguns anos, foi leitor na Universidade de Budapeste, Hungria. Como avalia a sua experiência em Budapeste?
ER – Saí para escrever: em cinco anos (1981-1986), escrevi o dobro do que produzira em dez (1971-1981). Não esperava voltar casado e pai. No intervalo, passeei Europa fora, conheci o socialismo real, virei traço de união entre dois países. Enquanto o Português se desenvolvia, alargando públicos e a própria logística, tornei-me o principal divulgador e tradutor de autores húngaros. Fui, por essa razão, galardoado três vezes. Mais importante, duas filhas luso-húngaras.

JN - Ernesto Rodrigues transborda nos seus textos uma escrita cheia de frescura, agilidade e fôlego. Além da sua intuição, sóbria, quais são os seus escritores de referência?
ER – Afora Gil Vicente, João de Barros, Camões, Fernão Mendes Pinto e Diogo do Couto, há dezenas de cronistas dos nossos séculos XVI e XVII que me inspiram sintacticamente. No séc. XVII, Tomé Pinheiro da Veiga, autor de Fastigínia, Francisco Rodrigues Lobo, Vieira e D. Francisco Manuel de Melo. A picaresca espanhola delicia-me. Sucedem Bocage e Filinto Elísio. No séc. XIX, além dos citados antes, António Pedro Lopes de Mendonça, Ramalho e Fialho. Mas Eça foi decisivo para o meu impressionismo estilístico, a par da entregue à literatura em Flaubert e do raciocínio em Poe. No séc. XX, são, mormente, estrangeiros: por um lado, assinaturas de um título, para mim, fundamental – Céline, Malraux, Sartre, Yourcenar –, e, por outro, de linhagem que reconheço familiar, nas suas visões do mundo e da literatura: Kafka, Joyce, Svevo, Bulgakov, Hrabal, Buzzati, Calvino, Orkény István, Borges, Cortázar, Vargas Llosa... Nossos, citarei, ao menos, José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena.

JN – Numa sociedade dominada pela força da imagem, acredita que a Literatura continua a ter o seu espaço próprio e único?
ER – A Literatura também vive de imagens. E, mais do que documento, comunicação ou instrumental, é expressão e monumento. Este património, que assenta na Língua, que permanentemente refunda (o que não acontece com outras artes, caso de artes instrumentais, aplicadas, etc.), será singular enquanto os homens forem seres únicos.

JN – Qual o livro que mais prazer lhe deu escrever?
ER – Torre de Dona Chama. A milhares de quilómetros, eu estava lá.

JN – Que prazeres a escrita lhe traz? E dissabores?
ER – Muito antes do comércio espiritual que alguma linha, personagem ou situação me tragam, vivo universos em que me perco e reencontro, convivo com gente que raramente encontro na vida empírica, experimento emoções e arrepios de uma felicidade tal, que nenhum cansaço físico é de molde a desanimar-me. Somos cuspidos à imagem do Criador, e sem vontade, mesmo, de descansar ao sétimo dia...

JN – Sente que vale a pena escrever o que se gosta, correndo o risco de escrever para um nicho, ou que, se calhar, seria mais proveitoso escrever para massas?
ER – O risco até pode conduzir às massas, aos milhares que compram e nem nos lêem... Ninguém deve enganar-se a si mesmo. Em literatura, não se escreve para; escreve-se. Não se sabe quem, um dia, tocaremos.

JN – Concorda quando afirmam que “os livros só o são na realidade quando nos trazem algo de novo”? O que trazem de novo os seus livros?
ER – O que significa ‘algo de novo’? No sentido em que o Criador tira ‘do nada’, sim, porque infunde no espírito da obra o que é propriamente seu, um sopro de vida que anima a criatura, no quadro de situações já mais ou menos sistematizadas. Por mim, ofereço um tratamento acurado da linguagem, com variação de registos e propostas vocabulares; alternância na focalização narrativa e pontos de vista, democratizando um discurso que vive muito de sobreposições temporais e ucronias, assim reunindo uma carga histórico-cultural forte e um desejo de intemporal.

JN – Tem medo que nos estejamos a tornar numa sociedade em que todos querem escrever, e poucos querem ler?
ER – Se todos escrevessem, todos liam – ao menos, o seu próprio texto, partindo do princípio de que o nome da capa também o escreveu. (Como se sabe, há muito ‘escritor-fantasma’.) Medo só tenho do uso deficiente do Português.

JN – Projectos para o futuro?
ER – Em mais de 36 anos de escrita, desde 14 de Fevereiro de 1971 – e recusados poemas ainda comparecendo na estreia –, perfiz umas cinco mil páginas, maioritariamente inéditas, que seria bom reunir: poesia, teatro, crónica, diário, ficção (contos, novelas, romances), ensaios de literatura e cultura, de incidência nacional e sobre estrangeiros. Não cabem, aí, edições de clássicos e traduções. A par desse trabalho, enquanto alguns inéditos de ficção aguardam decisões editoriais e uma tradução está no prelo (só em 2006, saíram três clássicos húngaros na Dom Quixote), tacteio nas primeiras páginas de um romance. A pouco e pouco, sem abandonar a investigação – coordeno equipa que estuda as repercussões na nossa Imprensa (1807-1822) da presença da Corte portuguesa no Rio de Janeiro –, interessa-me transitar docemente para o que me cumula deveras: a criação literária.