Ter, 17/04/2007 - 11:00
Assim, durante cerca de dezasseis anos, os franceses vivem um período de equilíbrio financeiro (após o despesismo napoleónico de constantes batalhas e campanhas) e de liberalismo político, com um regime parlamentar. Mas a situação não evolui e uma grave crise económica, entre 1846 e 47, desencadeia um forte levantamento popular que acabará por derrubar a monarquia. E instala-se, então, a II República. A nova constituição que entra em vigor faz partilhar os poderes entre a Assembleia, que legisla, e o Presidente da República, que executa. É então escolhida a divisa que iluminará as arcadas e os pórticos da democracia moderna, simbolizando a declaração dos direitos do Homem, de 1789: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.
Depois disso, o mundo civilizado, ocidentalizado e globalizado nunca mais seria o mesmo.
Hoje, duzentos anos depois, a uma pacata cidade transmontana – de sua graça Bragança – chegam os ecos amplificados dessa aurora libertadora que deu novas mentalidades à mente humana. Fez-se luz e a cidade, erguendo-se, palpitante de coragem e de sanha belicosa, lá acabou por descobrir o seu lugar privilegiado no inacessível universo da Modernidade, Atractividade e Funcionalidade.
Qual trilogia “redentora”, esta nova divisa assumiu-se como imagem de marca de um concelho que ainda não conseguiu afirmar-se para lá da sua sede. O conceito de Modernidade – constantemente referido como a síntese exponencial de um progresso sempre desejado e só agora alcançado – revela-se como o avesso de um certo provincianismo mal digerido, em permanente ânsia de regurgitação. Ao jeito de “descubra as 70 diferenças entre o antes e o depois”, a Modernidade foi-se arramando generosamente por entre as estonteantes rotundas, por cima das áreas betonizadas das avenidas novas, ao longo de vias feitas para a gincana diária (como se vê na empoeirada Avenida do Sabor) e por cima das zonas indistintamente granitizadas do centro de Bragança – de que a condenada Avenida João da Cruz parece vir a tornar-se o último exemplo.
A Modernidade é o primeiro dos três elementos, porque engloba os outros dois e é, evidentemente, o mais geral e abstracto. Como uma lei. Que nos impõe “novos” e “únicos” conceitos de urbanidade, supostamente capazes de fazerem a felicidade dos brigantinos, ancorados numa ilha betónica rodeada de inoportunos montes, últimos redutos de uma interioridade permanentemente rejeitada.
E a Atractividade? Enquanto sinónimo de sedução, este conceito exprime, incontornavelmente, uma vertente estética. E é quase impossível não lhe associar imagens mentais de jardins verdejantes, parques frondosos, avenidas largas e ladeadas por árvores, ruas pavimentadas com material regional, edifícios recuperados ou concebidos de forma enquadrada ou coerente com o espaço envolvente. No entanto, a realidade – dura e crua – habitua-nos não poucas vezes a gerir o choque que se gera entre aquilo que desejaríamos ter e o que acabamos por aturar: a ausência de espaços verdes, de sombras, de locais efectivos de lazer, de áreas devidamente recuperadas que mantivessem o espírito do lugar e a alma da gente que (ainda) as habita.
E quando a sobrevalorização da Atractividade faz esquecer a Funcionalidade, então não há Modernidade que nos valha. Se não, veja-se: a quem servem os espaços “atractivados” da zona Polis ou da zona Atlântico, se em tempos de canícula por ali não se pára, por falta de onde nos abrigarmos? Que adianta a sofisticada escorreiteza de um Mercado Municipal muito atractivo, quase transformado em mais um museu, onde os operadores fazem de público, à falta de clientes reais? Para quê um Matadouro, certamente muito asseptizado, se já nele só quase o tempo se mata? E para quê uma central de camionagem atractivamente concebida, onde não se concebeu a funcionalização inerente ao binómio estacionar/transportar? E qual é a funcionalidade de encarar o Castelo de Bragança apenas como ponto de turístico nocturno para se ver ao longe, se toda a zona histórica continua carente de actividade de animação habitacional, cultural e comercial?
Tal como a II República francesa criou a já universal divisa “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, esta nossa república brigantina já registou a patente do lema “Modernidade, Atractividade, Funcionalidade”. Em versão de produto 3 em 1, do tipo autóctone, para turista ver e embasbacar.


