Ter, 17/04/2007 - 10:57
Tinha treze anos, o corpo crescia de modo a as calças estarem acima dos tornozelos, à Dr. Sá Alves no dizer ribombado do Sr. Queirós, o meu passado recente não era nada feliz, naquele dia quente do princípio de Junho a Praça da Sé regurgitava de polícias fardados de terylene, bojudos homens de ar carrancudo, olhos tapados por óculos escuros, sendo salientes as coronhas das pistolas a saírem por debaixo dos seus casacos. Tudo porque o General Humberto Delgado visitava a cidade. O rapazio emitia sons alegres pelo espectáculo, o olhar do progenitor provocou-me arrepios levando-me a desandar. No entanto, o bichinho da política tinha feito o seu trabalho, até ao dia das eleições fitei o General retratado em grande gala, colocado na padaria do Sr. Afonso da Moagem e na casa do comerciante Milo. Cartazes dele muito poucos, porque não abundaria a coragem para os aceitar nas paredes de cada um, sou levado a concluir. As eleições redundaram numa enorme chapelada, acompanhei a situação lendo “O Primeiro de Janeiro” na barbearia onde oficiava o saudoso Gardel, ouvindo estórias e anedotas proferidas em voz baixo pelos viajantes vendedores de tudo, menos de sonhos, pois trabalhavam duramente enquanto aturavam os “importantes” do comércio local. Em 1960, tenho a sorte de encontrar um professor a ensinar bem o que tinha a ensinar, e a fora de horas não falar de baboseiras, mas sim a ajudar os seus ouvintes a perceberem que havia mais mundos para além do retrato de Salazar, em tudo quanto era sítio. O Dr. Costa Macedo emprestou-me livros, instruiu-me de modo a ouvir a Rádio Pirenaica e a Rádio Portugal-Livre cujos noticiários muito deviam a voz de “basso” do poeta Manuel Alegre. Nas digressões nocturnas a caminho de Val-de-Álvaro perguntava ele pelas pessoas da oposição em Bragança. Referia-mos poucos nomes: o alferes Fernandes, o filho do farmacêutico republicano Acácio Mariano que se ficava pelas boutades enquanto passava a mão pelo cabelo empastado e não se esquecia de referir o ser semi-cunhado do Comandante Geral da GNR, os comerciantes Arina e Miranda Braga, o serralheiro Zé Reis, o ruidoso Verbo, nada mais. O professor ria-se, continuava a conversa ajudado pela mulher espanhola, o ano lectivo chegou ao fim. Um bom ano em termos de doutrinação, não para o professor pois regressou, tendo sido obrigado a abandonar o País. Salazar continuava ufano, a União Nacional mandava politicamente, os bufos sinistros bufavam, o mais parvo e saliente, o famigerado “Padre Mota” arreganhava os dentes enquanto rosnava ameaças. Nos fins de 1961, surge na cidade o Veleda filho de uma senhora viúva que morava junto à casa do Cónego Ruivo. Chegámos à fala, diziam-se coisas dele, teria estado preso, nas conversas propôs fazermos pinturas nas paredes. Só tinha de levar a lata com a tinta e arranjar dois vigias. O arrebatamento de poder revolucionário impediu-me de pensar na parvoíce e inutilidade do acto. Entrámos em acção numa noite invernosa, os vigilantes escapuliram-se mal leram a primeira pinchagem inscrita na parede das traseiras do Lar da Mocidade: “pedimos a forca para Salazar”. Nunca deram com a língua nos dentes, se tivessem vergado ao medo esta crónica seria bem diferente, nem sei se a escreveria. Obrigado Augusto Oliveira Gomes e Amadeu Pires. Em menos de meia-hora o experiente Veleda escreveu uma dúzia de inscrições e desapareceu, conforme o combinado. Nessa noite não dormi, no dia seguinte havia alvoroço e falatório, ao almoço lá em casa percebi o alcance do estúpido trabalho. O meu desassossego converteu-se num imenso terror de ser descoberto, não o fui porque a ninguém ocorreu suspeitar de um rapazola disparatado e do eclipsado Veleda, as investigações pousaram na direcção de ocasionais passantes pela terra em noite de nevoeiro. O nevoeiro era verdade. O Sr. Cipriano, Verbo desfiava uma mirabolante teoria a encher de pasmo todos quantos o escutavam. Na altura, já percebia melhor o andamento dos reviralhistas e suspeitos de o serem. Todos ficaram aborrecidos e irritados, acomodados e instalados não lhes agradava a ideia poderem vir a ser inquietados, mais a mais, devido a uma acção vazia de sentido. O manholas de Santa Comba bebia tinto Dão e comia ovos preparados pela Dona Maria.
Armando Fernandes
PS. Concluo em próximo artigo.


