Ter, 27/03/2007 - 14:46
Passeava-me descontraidamente num dos corredores da referida escola, no momento em que uma colega, doutra turma, foi literalmente abalroada por um grupo de outros colegas que, na obediência cega e eufórica – própria da idade – ao toque de saída, transpunha a soleira da porta em direcção à zona de recreio. No apelo ao mais nobre dos valores cristãos, a solidariedade, resolvi “estender a mão” à desguarnecida. Levantei o corpo prostrado no chão, e apanhei os livros que se haviam espalhado por uns bons largos metros. Eis que, no preciso instante em que acabava de cumprir a missão que incondicionalmente me havia proposto empreender, sou surpreendido por um valente par de estalos, desferido por um professor – curiosamente ainda exerce a docência na mesma escola -, que, na ocasião, por ali passava. Levado, por uma orelha, ao Conselho Directivo – experiência nunca vivida, e não mais viria a acontecer durante todo o meu percurso escolar -, pelo autor dos “mimos” faciais, o presidente, o afável e competente Dr. Abreu, meu professor de Português, poupou-me à sanção disciplinar, por não acreditar que eu fosse capaz de desafiar as regras estabelecidas.
Esta faceta de infância, guardada nas gavetas da minha memória, está longe de me ter causado qualquer tipo de frustração, trauma ou recalcamento. Apenas, porque está na moda as agressões aos professores e auxiliares educativos, a evoco e submeto à reflexão, com o objectivo de contrapor a imagem da instituição escola actual, na forma como disciplinarmente se organiza, à dos ditos tempos de má memória.
No mesmo mês em que o país recebeu, com estupefacção, a notícia de que a mulher que, em 2003, agrediu, em plena sala de aula, uma professora numa escola de Bragança, havia sido condenada a cinco anos de prisão efectiva, três outras profissionais do ensino foram submetidas ao mesmo tipo de humilhação. A primeira – não me recordo onde aconteceu -, uma professora do 2º Ciclo, foi agredida a pontapé, à bofetada e arrastada pelos cabelos, por uma avó tresloucada. A segunda, que leccionava o mesmo grau de ensino, numa escola do Porto, foi agredida fisicamente por um aluno de 13 anos. A última, uma Educadora de Infância, duma escola de Celorico da Beira, não foi poupada à fúria selvagem da mãe duma aluna, por ter sido “tramada” por alguém da Segurança Social, que não se obrigou ao sagrado princípio do segredo profissional.
Mergulhados neste delicado fenómeno social, que assume contornos cada vez mais preocupantes, somos levados a concluir que, afinal, Abril está a anos - luz de se cumprir. Porque, enquanto cidadão que se curva perante certos valores que consolidam e alicerçam o tecido social, sem que para isso veja alguma necessidade de ansiar pelo regresso dum Messias do Tempo da Outra Senhora, custa-me entender que autores de agressões a docentes – que é qualquer coisa de extremamente grave -, sejam ilibados dos seus actos criminosos, em nome de pretensas teorias pedagógicas e do comportamento humano, cujos seguidores encontram explicação para o intolerável em factores de ordem social e consequente ambiente familiar, como se o respeito pelo Outro estivesse na dependência directa de tais pressupostos.
Na sequência dos referidos incidentes, o actual governo prepara-se para elaborar um conjunto de medidas que visam salvaguardar a integridade física e moral dos docentes, das quais, pela sua relevância, destaco duas: a devolução da autoridade a quem exerce a actividade docente, e a inclusão, no Sistema Penal, duma alínea que considere crime público qualquer tipo de agressão aos mesmos.
O que se me afigura estranho, relativamente à segunda medida, é que só agora se perceba que ela seja considerada verdadeiramente imperiosa, uma vez que o professor, à semelhança dos demais funcionários públicos que exercem profissões consideradas de risco, é não mais do que um Servidor do Estado. É, pois, nessa condição que mantém laços de dependência com a entidade servida; daí a obrigação desta evitar a conspurcação da honra e do bom - nome dos seus subordinados.
Mas enquanto a lei não passa para o papel, e porque o perigo é iminente e espreita a cada sala de aula, a cada corredor e à saída de cada escola, o que a nobre profissão devia fazer, como acontece com as classes intocáveis, sempre que os mais sagrados valores humanos são beliscados, era seguir a velha máxima de que “a união faz a força”, numa espécie de saudável corporativismo gregário.
À digníssima professora Conceição Outeiro, pela corajosa, porque arriscada, atitude de enfrentar um “fantasma” que a maioria dos comuns mortais, em circunstâncias semelhantes, compreensivelmente, diga-se, jamais ousaria fazê-lo, o meu apreço e admiração.
N.B: Mesmo em casos extremos, quando, por exemplo, as elisabetes e outras que tais envergonham a classe que tem por missão “formar as consciências dos jovens”, os conflitos resolvidos pela via do confronto físico só servem para tirar a razão a quem, eventualmente, a possa ter.


