Ter, 20/03/2007 - 11:52
Essa postura contempla ainda uma profusa tendência para a proliferação de obras tendencialmente despesistas, que a médio/longo prazo, o tempo encarregará de provar a sua desadequação (Túnel, Mercado Municipal, Praça Camões, etc.).
Uma passagem de cabeça bem levantada pelas ruas Combatentes da Grande Guerra, Rua Abílio Beça, Trindade Coelho, Serpa Pinto e São João permite verificar o estado de enorme decrepitude de inúmeros imóveis, o envelhecimento da população que os habita, o seu esvaziamento humano. Em suma, a existência de degradação e a inexistência de moradores.
A fomentação de incentivos de facto, para a instalação de famílias nessas áreas e o desincentivo à construção desenfreada nos bairros periféricos, acompanhado pela não permissão de construções demasiado altas nesses locais, teriam contribuído para um panorama bastante distinto.
As praças da Sé e Camões são, durante o dia, zonas de pouca afluência e, à noite, zonas praticamente fantasmas. O resultado da intervenção da Câmara provocou a exclusão, enquanto que o verdadeiro conceito de cidade se baseia na inclusão. O executivo, ainda que partindo de um conjunto de boas intenções, obteve resultados maus. Foi incapaz de antecipar as consequências da intervenção que levou a cabo. A cidade está linda para a fotografia, revelando-se pouco prática para quem tem que aqui realizar o seu dia a dia. Intui-se no ar uma cidade esterilizada!!!
Aliás, a praça Camões é um bom exemplo de uma intervenção estrategicamente errada. Se em relação ao parque de estacionamento (embora meta água constante e o elevador tenha levado dois anos a ficar operacional, para funcionar apenas um mês) nada temos a objectar, o fim definido para a superfície, previa-se, e está a revelar-se desadequado.
O núcleo urbano que o executivo arquitectou nestes anos todos… quase uma década de responsabilidades,… tornou-se num carreirinho de automóveis onde não é permitido tropeçar… ou… pára tudo!!! Emergências não são permitidas!
Ouve-se o executivo propalar o núcleo urbano central e eficiente… vá lá saber-se, ninguém o usa… e os poucos que o utilizam dão-lhe claramente nota negativa. Que saudades da nossa praça da Sé! Mudar por mudar não é solução. É ir atrás de modas e descaracterizar o património cultural.
“As praças da Sé e Camões são, durante o dia, zonas de pouca afluência e, à noite, zonas praticamente fantasmas”
Facilmente se verifica que a estratégia da CMB não é coerente. Fazem-se intervenções no intuito de melhorar as condições de utilização dos equipamentos urbanos para os cidadãos e de seguida retiram-se os eventos culturais de referência dessas zonas nobres….Alguém se lembra da verdadeira feira das cantarinhas? E das Festas da Cidade? Que saudades da feira das cantarinhas… mas daquela de verdade…aquela que devolvia aos Brigantinos as ruas do centro da sua cidade!!! Não falo deste sucedâneo que teima em levar as pessoas para a beira do mercado municipal …Recordo-me do particular gozo que dava pisar na calçada que noutros dias era dos automóveis, saboreando uma cerejita que repenicava do característico ramo.
E então que dizer do ex-libris de Bragança… as suas festas da cidade!!! Já lá vai o tempo que se demorava 10 minutos da praça da Sé até à praça Cavaleiro Ferreira por entre uma multidão de transeuntes… que saudades… A cidade fervilhava de vida.
Visto e revisto o que se está a passar na intervenção da Av. Cidade de Zamora, que transformará uma potencial entrada da cidade de Bragança imponente e moderna, noutro carreirinho de cidade tipo “Lego”, consubstanciado num planeamento de intervenção mal calculado com transtornos óbvios para os moradores (frequente falta de água e de luz, esgotos a desaguarem em garagens etc.), não posso pensar com optimismo na proposta que foi apresentada para a Av. João da Cruz.
Sem qualquer hesitação antevejo mais uma descaracterização do património de Bragança. Em termos funcionais, a intervenção proposta vai melhorar o quê? Será que esta intervenção foi pensada de uma forma global e enquadrada no Plano de Mobilidade Urbana de Bragança, permitindo eliminar a dor de cabeça em termos de engarrafamentos, que resulta na pescadinha de rabo na boca formada pelas Ruas 5 de Outubro, Republica e Almirante Reis? Não me parece! Mais uma vez se verifica que esta é uma intervenção avulsa em que se vai mudar por mudar!
Não me parece estratégico que se revolucione os passeios da avenida a pensar na sua utilização por parte dos comerciantes da zona. Estes não terão vantagens na utilização desse espaço uma vez que como referimos os eventos de referência são desviados da zona antiga para novos espaços cuja existência é necessário justificar.
Por outro lado, as taxas que são cobradas aos proprietários dos estabelecimentos de restauração pela utilização dos espaços de esplanada não são de forma alguma incentivadoras uma vez que são elevadas. O horário de funcionamento também não ajuda uma vez que as explanadas têm que encerrar cedo.
Pretendemos uma cidade moderna e funcional, solta e dinâmica e com estratégia, não uma cidade acanhada e refreada com acrescidos e insustentáveis custos de manutenção. Em suma, o projecto da Av. João da Cruz e Praça Cavaleiro Ferreira parece-nos mais um acto desgarrado de um projecto esgotado e sem ideias, que tem contribuído ao longo desta última década para criar uma cidade hipotecada e tendencialmente insustentável, se nada for feito enquanto é tempo.
Luís Carlos Pires
Coordenador do Grupo do PS na Assembleia Municipal de Bragança


