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A Lei da Paridade: Um Mal Necessário

Ter, 06/03/2007 - 11:16


Em Maio de 2006, recordo-me de me ter entregue à leitura atenta duma entrevista concedida a este jornal pela jovem, bonita e simpática Ana Margarida Soares, vogal da Comissão Política Nacional do CDS-PP – filha de ex- professores meus, por quem tenho uma incomensurável estima -, na qual era expressa, de forma clara e convicta, a sua discordância relativamente à discutível Lei da Paridade, que viria a ser aprovada três meses mais tarde.

Se há matérias em que nos podemos sentir divididos, não por motivos de inconstância de carácter ou falta de solidez de ideias, mas pela própria essência da coisa a julgar, a Lei da Paridade, que tem por objectivo estabelecer quotas de participação femininas, sempre que a distribuição e/ou ocupação de lugares a preencher decorrem de actos eleitorais, seja qual for da sua natureza, é uma delas.
Então, por que razão, dentro desta perspectiva, estando eu, pelos argumentos tão solidamente invocados, de acordo com a posição da promissora Ana Margarida, poderei admitir, ao mesmo tempo (o que pode parecer paradoxal), que esta lei possa ser um mal necessário? Simplesmente porque este Diploma se destina a cidadãos dum país que dá pelo nome de Portugal, cuja sociedade, vivendo em pleno século XXI, se organiza, pensa e age na dependência duma mentalidade nitidamente a roçar o islamismo; em que o elemento feminino é constantemente discriminado.
Vou deixar aqui duas notas que elucidam o quanto a mulher, em Portugal, ainda que decorridos 150 anos após o mais emblemático movimento de contestação feminino, de que há memória, a partir do qual se instituiu o Dia Internacional da Mulher, comemorado a 8 de Março, é vítima dum certo tipo de segregação social; cujos cultores desta disposição mental encontram “explicação” em falaciosas desculpas que assentam na culturalidade e em falsas predisposições.
Na recta final do mandato do anterior governo, e na sequência de várias nomeações políticas para esta região, consideradas, na ocasião, por alguns, polémicas, um determinado indivíduo, escondido por detrás do anonimato, por falta de coragem para dar a cara, denunciava a situação, através dum semanário vila-realense, visando os respectivos “contemplados”. O que retive do difamante arrazoado foi que, em relação a uma pessoa referenciada – a única que me chamou a atenção, por a conhecer pessoalmente -, o dito senhor fazia a seguinte consideração: “…foi escolhida para o cargo de (….).a esposa dum conhecido político da terra…”. Observação que, além do alarde da masculinidade do autor, porque dela se depreende a estigmatizada condição da “eleita”, que a subjuga à “protecção” marital, omite, entre inúmeras qualidades, a competência e o sentido de missão da nomeada.
Porém, o machismo assume contornos bem mais graves. Há, incompreensivelmente, nos dias de hoje, homens, no seu entender, intelectualmente polidos, que, não se conformando com o sucesso feminino, e pela dificuldade de o digerir, debitam alarvidades que são não mais do que o reflexo do seu próprio carácter. Visto que a mulher tem vindo paulatinamente a conquistar, por mérito próprio, um estatuto que lhe confere notória visibilidade social, outrora negado, ela perfila-se, antes de mais, como uma “feroz” concorrente do macho. Por conseguinte, quando este se sente ameaçado, e porque também não reconhece a autoridade feminina, e muito menos admite estar na sua dependência hierárquica, reage com tiradas de baixo nível, como: “ Com quantos se teria ela deitado, para chegar onde chegou?!”
Diante da inegável institucionalização da “menoridade” feminina, somos levados a concluir que os argumentos exibidos pelos não partidários da referida Lei enobrecem a própria mulher. Pois, quando elas, na sua límpida humildade, pensam que o lugar que ocupam deve ser conseguido não através de critérios impostos pela lei, por “demérito”, mas pelo seu próprio talento e capacidade, denotam um vincado apego a valores nem sempre presentes na maioria dos homens, como a honestidade, a seriedade e o pudor.
Este é o meu singelo tributo a todas as mulheres, independentemente da sua condição, raça, credo ou inclinação ideológica.