Ter, 27/02/2007 - 10:26
Esta tradição, que esteve à beira do fim, foi revitalizada, no ano passado, pela Câmara Municipal de Vinhais (CMV). Na passada quarta-feira, os diabos, vestidos com um fato vermelho e com um chicote na mão, voltaram a sair à rua, mas em maior número.
“As pessoas estão mais receptivas, porque começaram a perceber a importância desta tradição para vila, pelo facto de ser única. Bragança também teve este ritual, mas acabou por morrer”, realçou o vice-presidente da CMV, Roberto Afonso.
O Dia dos Diabos teve início com o assalto a uma casa, onde se escondia um grupo de raparigas, que ainda tentaram impedir a entrada dos protagonistas do mal, atirando-lhe água e cinza, mas a rebeldia dos diabos levou-os a arrombar a janela, para castigarem as moças.
Agarradas pelos mascarados de vermelho, as raparigas são levadas à pedra, onde são forçadas a ajoelharem-se e flageladas com cinturadas, ao mesmo tempo que recitam orações pagãs como: “Padre-nosso, caldo grosso, carne gorda não tem osso, rilha-o tu que eu já não posso”, ou “Salve rainha, mata a galinha, põe-na a cozer, dá cá a borracha que quero beber” e ainda “Creio em Deus, padre todo-poderoso, o filho do rei creou um raposo”.
Raparigas escondem-se na Igreja, mas não conseguem escapar à maldade dos diabos
Na esperança de escaparem ao diabo, algumas raparigas refugiam-se na Igreja, onde só a figura da morte, encarnada por um rapaz de fato negro com um esqueleto gravado a branco e com uma gadanha na mão, está autorizada a entrar. Apesar de ser um lugar sagrado, as moças são apanhadas pela morte e, mais uma vez, castigadas pelos diabos.
Roberto Afonso explica que esta encenação marca o início da Quaresma, um período de reflexão, que é vincado pelos diabos, que recordam às pessoas que têm que penitenciar os seus pecados.
“As pessoas aderem bem à iniciativa. Poderão não gostar muito de algum diabo que pratique um castigo mais exagerado, o que nós tentamos evitar, uma vez que se trata de uma encenação. Nós não queremos bater às pessoas, mas, apenas, recordar a tradição”, acrescentou o autarca.
Antigamente, os hábitos eram outros e havia mesmo quem aproveitasse a quarta-feira de cinzas para se vingar dos inimigos e fazer alguns ajustes de contas.
Os tempos mudaram e, actualmente, os mais pequenos também se juntam à festa, garantindo a continuidade desta tradição.
“As crianças também gostam de participar, alguns deles juntamente com os pais. Há uma artesã que faz os fatos e queremos que continue a fazê-los durante muitos anos”, salientou Roberto Afonso.
O Dia dos Diabos representa uma manifestação simbólica da identidade das gentes de Vinhais, à qual, este ano, se juntaram alguns espanhóis que mostravam curiosidade, ao mesmo tempo que se divertiam com as diabruras dos mascarados.


