Entrevista

“Sem o movimento das mães, as casas de alterne mais afamadas de Bragança poderiam ter sobrevivido”

José Machado Pais é investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Inspirado pelo caso "Mães de Bragança" levou a cabo uma investigação, que demorou cerca de 13 anos e culminou no livro “Enredos Sexuais, Tradição e Mudança - As Mães, os Zecas e as Sedutoras de A

11 mai. 2016, 08:29

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José Machado Pais é investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Inspirado pelo caso "Mães de Bragança" levou a cabo uma investigação, que demorou cerca de 13 anos e culminou no livro “Enredos Sexuais, Tradição e Mudança - As Mães, os Zecas e as Sedutoras de Além-Mar”. Não perca a entrevista do autor do estudo ao Jornal Nordeste e fique a par das principais conclusões do mesmo.

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Os temas dos afectos e da sexualidade têm sido abordados pelo autor em diversos estudos sociológicos. Foi inspirado pelo caso do movimento das “Mães de Bragança”, desencadeado por um grupo de mulheres brigantinas que, em 2003, denunciava às autoridades civis e policiais a realidade da prostituição na cidade, com várias casas de alterne e “cafés de subir” em funcionamento e cerca de 100 brasileiras a residir na cidade que, segundo elas “desencaminhavam os seus maridos”. É a partir deste caso que José Machado Pais desenvolve uma investigação que durou quase 13 anos e que deu origem ao seu mais recente livro que, segundo o autor, foi aquele que mais tempo lhe demorou a escrever. “Enredos Sexuais, Tradição e Mudança - As Mães, os Zecas e as Sedutoras de Além-Mar” foi o título escolhido para esta investigação que contém “expedições etnográficas, numa aventura cheia de enigmas e descobertas” e explora “estereótipos em relação à brasileira e ao português otário”. É apresentado na próxima semana em Lisboa e, para já, não tem datas para Bragança mas o autor assume essa possibilidade.

Em entrevista ao Jornal Nordeste, o autor desvenda algumas das conclusões deste estudo e fala da realidade que encontrou em Bragança. Uma delas é a de que os idosos são grupos de risco para as doenças sexualmente transmissíveis e ainda não estão devidamente alertados para isso.

Bragança e os factos que estiveram na origem do movimento "Mães de Bragança", são para si um case study. Porquê?

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Sim, diz bem, um case study. Um estudo de caso que deve ser tomado em dois sentidos: pela sua singularidade e pela sua tipicidade. O que me levou até Bragança foi um impulso de grande curiosidade pelo auto-denominado “Movimento das Mães de Bragança”. Em ciências sociais há uma vasta literatura sobre movimentos sociais, mais ou menos organizados ou espontâneos, mas quase todos eles se inscrevem no domínio das reivindicações políticas. O movimento em causa fugia desse padrão. Então decidi viajar até Bragança para ver in loco o que se passava. Depois, dei-me conta dos enredos sexuais que apareciam associados ao movimento e de como aí tinha uma excelente oportunidade para reflectir na problemática da mudança social.

Quais as principais conclusões a que chegou com este trabalho?

Não é fácil resumir numa frase as conclusões do estudo, muitas das quais são de índole teórica, relativas aos processos de estigmatização e esteriotipização social, cujas principais vítimas foram as chamadas brasileiras e as mães envolvidas no movimento que não representa, obviamente, o colectivo das mães e mulheres de Bragança. Posso, no entanto, destacar uma conclusão, pela sua pertinência em relação às políticas de saúde pública. Embora as campanhas de educação sexual dirigidas aos jovens continuem a fazer todo o sentido, principalmente no que se refere à prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, o que a pesquisa mostra é que os idosos constituem o principal grupo de risco. Refiro-me aos menos alfabetizados, os menos conscientes dos perigos que correm quando se envolvem com trabalhadoras de sexo. A realidade que encontrou em Bragança foi muito diferente daquela que imaginou?

Algo diferente, sim. Chegaram a prevenir-me de que poderia encontrar um clima de hostilidade, incompreensão e boicote à investigação. Nada disso. Foi surpreendente o acolhimento que tive em Bragança sempre que me dirigia a alguém para a realização de entrevistas, incluindo forças policiais e até um jovem padre com grande sensibilidade sociológica na compreensão de alguns dramas familiares. Porque os houve, numa dimensão muito mais acentuada do que imaginava. Também não esperava encontrar uma tensão tão grande entre os apoiantes das mães e os das trabalhadoras de sexo ou das chamadas meninas. Em depoimentos e recortes da imprensa, confrontei-me com reflexões sensatas mas também com ânimos exaltados e insultuosos, de que aliás dou conta nos dois primeiros capítulos do livro.

Se o movimento "Mães de Bragança" não tivesse existido, acha que a realidade da prostituição na cidade, e até no país, seria a mesma?

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Provavelmente, sem o movimento das mães, as casas de alterne mais afamadas de Bragança poderiam ter sobrevivido. Quanto à prostituição, essa é uma realidade persistente: em Bragança, no país, em qualquer parte do mundo. Mas algo mudou. O agendamento mediático do fenómeno permitiu que o tema da prostituição fosse debatido, nos cafés, nos cabeleireiros, nas famílias, nas escolas... e isso foi muito positivo. É certo que, por vezes, o confronto de ideias ultrapassou os limites da civilidade, como aparece documentado no livro. Mas ultrapassada a fase inicial de confronto mais exacerbado, os ânimos acalmaram-se e ficaram experiências de vida que valem por si.

O que significou, na sua opinião, este movimento?

Significou muito mais do que à primeira vista pareceu, um simples ou banal movimento retrógrado. É certo que no manifesto das autodenominadas Mães de Bragança existiam traços de um tradicionalismo caduco. Como era também equívoca e injusta a culpabilização das brasileiras por alegadamente atraírem os seus maridos com macumbas e chás de amarração. Apesar destas ancoragens à tradição que, aliás, levou algumas mães a recorrerem a bruxas e videntes para desamarrarem os seus maridos dos supostos feitiços e macumbas, o movimento significou claramente um grito de revolta por não serem reconhecidas no seu estatuto de mães. Significou também uma afirmação de cidadania. Elas não cruzaram os braços, sofrendo, com resignação, os desvarios dos maridos. Não, deram publicamente voz ao seu protesto.

O livro fala da "tradição e mudança dos enredos sexuais". O que se mantém de tradicional e o que mudou neste tipo de relacionamentos extra conjugais?

Com o movimento das Mães de Bragança a sexualidade foi questionada e, sobretudo, os desequilíbrios de género nas relações conjugais. Isto tanto na esfera privada como na pública, ou em círculos sociais e de sociabilidade. Da parte de alguns frequentadores de cafés de subir havia o lamento de que as suas mulheres, na cama, eram como um fardo de palha ou um Cristo de braços abertos. Uma imagem muito forte mas que representava muito mais do que uma rotina sexual. Vendo bem, representava, sobretudo, uma rotina de vida de muitas mulheres crucificadas por suas labutas quotidianas. Rotina de vida própria de mulheres inscritas num modelo de conjugalidade tradicional onde a escrava do lar aparece valorizada, onde a castidade conflui no castigo. Hoje, as relações de género democratizaram-se, particularmente entre as jovens gerações. Há claros sinais de uma relativa emancipação nos segmentos da jovem população feminina, mais escolarizada. Independente destas mudanças, a prostituição persiste apesar de suas roupagens mais sofisticadas. Porém, nas relações pré-conjugais é residual a percentagem de rapazes que se iniciam sexualmente com prostitutas, ao contrário do que acontecia noutros tempos. As jovens gerações serão provavelmente promotoras de novas atitudes perante a sexualidade e a conjugalidade.

Por: Sara Geraldes.

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