Que Deus e a chuva nos valham

Ter, 17/10/2017 - 10:35


Ontem acordámos em Bragança com cinza a cair-nos sobre a cabeça, um céu cor de brasas mortiças, o ar tomado por um fumo de lume gasto, que nos fazia respirar como nos arrabaldes do inferno.
Outono dentro o país voltou a arder, como só se vira antes, no fim da primavera, ceifando outra vez dezenas de vidas, depois de um verão em que o terror rondou as almas todos os dias, porque se foi sabendo que as estruturas de combate aos incêndios, num ano de estranhos eventos climáticos, eram a expressão ridícula da inépcia e da desordem, impensáveis num país do clube dos desenvolvidos, onde os responsáveis políticos reclamam a condição de verdadeiros estadistas.
Foi-se gemendo e suspirando, contando com o ombro do Presidente da República, sempre disponível para lamentações, enquanto se anunciava um relatório sobre as causas de tão grande devastação e tragédia. Soubera-se, no fim da semana, que tal relatório pusera a nu a inoperância, o descuido, mesmo a displicência de enfatuados “boys”, colocados na estrutura da Protecção Civil, alguns entretanto caídos do pedestal por terem aldrabado as habilitações.
Além disso, não apagava a sensação de que o sistema de comunicações utilizado é uma verdadeira sucata, vendida há anos como suprassumo, num contrato em que o Estado não garantiu penalizações para incumprimentos, nem sequer para refinadas vigarices.
Perante os fogos de cada dia, o sistema falhou repetidamente, mas nada foi feito para garantir uma alternativa credível, nomeadamente a mobilização a sério de estruturas militares e policiais para garantir vigilância mais apertada sobre focos de incêndio e perseguição activa a eventuais lançadores de fogo a soldo de interesses inconfessáveis.
Pelos vistos, esperou-se que a chuva viesse fazer esquecer a tragédia de Pedrógão. A misericórdia divina não faltaria. Desmobilizou-se o aparato de vigilância e de combate a meio de Setembro, até que recrudesceram os incêndios e voltou a ficar à vista o caos. Só então se repuseram os mecanismos, pelo menos formalmente.
Eis que no domingo, o Altíssimo ter-se-à distraído, deixando ao acaso dos caprichos da natureza e da malvadez a sorte de mais uns milhares de cidadãos, que viram queimadas as vidas ou reduzidos a pó os projectos de resistir enraizados na sua terra.
Um sistema que não é capaz de garantir condições pa­ra que os cidadãos se sintam seguros e confiantes, recua aos tempos primordiais, quando os poderes das profundezas moldavam as vidas e só restava aos pobres humanos recorrer a entidades que lhes aliviassem as angústias, evitando miraculosamente as tragédias.
Se continuarmos assim, dispensamos a construção política e ficamo-nos pela esperança de que os deuses nos valham ou, simplesmente, pela melancolia que a vida será só o que Deus quiser, enquanto vamos enchendo as redes sociais de lacinhos pretos e lamentos piedosos, à espera da próxima catástrofe.

Teófilo Vaz