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Quase secos mas sem dívidas

Ter, 03/05/2016 - 17:08


Os municípios da região têm vindo a anunciar que, em resultado de esforços de gestão, os endividamentos das câmaras estão em baixa. Nalguns casos de forma notória e com significado real na saúde financeira da respectiva autarquia; noutros, com descidas ténues, conjunturais, sem que se possa concluir que foi, de forma determinada, encetado um processo de inversão da mobilização de empréstimos para a gestão municipal.
É importante lembrar que a redução das dívidas resultou primeiro de uma imposição do poder central, na sequência da intervenção internacional com vista à regularização da vida financeira do país, desde 2011.
Objectivamente, na região, ou no resto do país, o arrepiar do caminho só se concretizou por determinação exterior aos municípios, ficando a sensação de que, ao longo do tempo, poderá ter havido alguma displicência, quando o tempo se apresentava de “vacas gordas”. Assim terá acontecido quando choveram, durante duas décadas, diariamente, milhões da U.E, que éramos autenticamente empurrados a gastar.
Aferia-se, então, o mérito dos autarcas pela capacidade de encontrar projectos que mobilizassem os fundos comunitários. Os ineptos seriam os que não tivessem jeito para lançar o dinheiro sobre a terra. Mas, sempre soubemos que esse não é o método para que o dito se reproduza.
O caudal de euros veio depois de um tempo longo, em que a região vira escoar-se a gente, que então teria ainda energia para nos salvar da condenação. Houve autarcas, cheios de ilusão e boa vontade, que terão acreditado ser o momento para recuperar a região.
Infelizmente, a sangria já não se estancava com meios técnicos ou financeiros e foi penoso ver as festas esperançosas do lançamento de múltiplas obras, propiciadoras de qualidade de vida, que foram ficando às moscas, ao relento e à mercê do abandono, mas que custaram muito dinheiro. Daí o crescimento de dívidas que aparentavam ser virtuosas, porque se acreditava poderiam recuperar a vontade de ficar, ou mesmo de voltar.
Não foi o que aconteceu. Ficaram as obrigações. Pior, continuámos a insistir, crentes de que um dia, havendo água, saneamento, casa do povo, centro de dia e por aí fora, ainda haveria esperança. Afinal, só estávamos a adiar a nossa própria rendição.
É verdade que houve casos em que a desertificação já atingira níveis tais que não se vislumbrava onde gastar mais dinheiro e, por isso, as finanças autárquicas caminharam naturalmente para o equilíbrio.
A festejada redução das dívidas municipais, aparentando gestão mais eficaz, pode não ser mais que o resultado inevitável de duas condições que se conjugam: já não há onde aplicar recursos, por manifesta inutilidade, ou o voluntarismo traduziu-se em investimentos sem capacidade reprodutiva, ameaçando ainda mais degradação das localidades da região, por comparação com a faixa do país que continua a encher-se das gentes que daqui se vão.
Fora necessário, talvez, que, em vez de cada município ter procurado segurar a sua capela, tivessem encontrado soluções partilhadas, estrategicamente definidas e agregadas pela solidariedade, aceitando que a poder ficar sem dedos não valia a pena guardar anéis.
Nesta edição, o Nordeste publica um suplemento sobre o turismo no distrito. É um contributo para que, neste sector, ainda seja possível pensar um futuro, que abra uma última porta de esperança. Porque, apesar de tudo, ainda não estamos amortalhados. Se houver vontade política, poderemos evitar a diluição no caldeirão da grande região norte. De outra forma, não deixaremos nenhum sabor a nordeste no caldo que o futuro reservará aos visitantes. Ficará somente a me­mória do que fomos e da miséria do que não pudemos ser.

Por Teófilo Vaz