O centralismo e o arraial mediático

Ter, 19/09/2017 - 11:57


Com a pré-campanha a terminar, houve nova corrida, nova viagem dos responsáveis dos partidos maiores, por enquanto, pelas terras do distrito.
Já fazem parte da nossa condição política estas romarias apressadas, antes que a verdadeira campanha, pastosa e entediante, nos incomode todos os dias com paleio redondo, por entre praças e ruelas, mercados de peixe ou de trapos e festarolas.
Das verdadeiras questões das três centenas de municípios pouco ou nada será dito, a discussão não terá espaço e, provavelmente, a abstenção terá lugar no pódium da demissão cívica, miséria das democracias neste início do terceiro milénio, tempo em que as utopias parecem dar o último suspiro.
Lamentámos muitas vezes a distracção, o descuido, o alheamento calculado do poder central. Clamámos por deslocações ao país real. Houve momentos em que nos pareceu que os apelos teriam sido ouvidos. Realizaram-se presidências abertas, conselhos de ministros pelo país, mas os resultados foram insignificantes.
Ainda acreditámos que tais iniciativas, mobilizando a comunicação social, levariam à praça pública nacional as questões que nos tornam a vida num inferno todos os dias. Mas, afinal, os grandes media também não se importam com o tal país, porque os objectivos editoriais continuam a ser determinados pela lógica das audiências que a superficialidade sustenta e não pela observação das realidades duras do país.
Entende-se mal, por isso, que no último fim de semana tenham sido deslocados quantiosos meios, carros de directos e muitos jornalistas para responder a solicitações de editores que não sabem, nem querem saber do que por aqui se pensa, se sente, se discute. Resultaram peças que se empastelaram na guerrilha do rating, das afirmações de Centeno, das virtudes e pecados da geringonça.
Foi interessante assistir em triplicado à montagem e desmontagem do arraial mediático, com proficiência e olhares de soslaio para a informação regional, com o fito de apanhar as chegadas dos líderes lisboetas aos lugares dos comícios. Depois era o enfado enquanto se apresentavam as candidaturas locais, até que falassem os senhores da capital.
Significativo da distância que também separa a comunicação social nacional da vida dos portugueses do interior foi o facto de que, mal acabava o discurso do poder central, imediatamente se desligavam as câmaras, se recuperavam os cabos, se fechavam os computadores. Só os órgãos regionais e locais ficavam para ouvir os candidatos aos municípios, cumprindo a função que lhes compete. Donde se conclui que o país real, envelhecido e despovoado, que não interessa aos políticos de Lisboa, também não tem lugar nos órgãos de comunicação, tão centralistas como aqueles.
Não se poderia esperar muito mais, porque, em grande parte dos casos, sendo como são pessoas como quaisquer outras, os editores e os jornalistas continuam a olhar para estas terras como um fim de mundo, talvez incomodativo para as próprias consciências.
Assim não vale a pena deslocar tais meios, porque a atenção não passa de uma aparência e, como sabemos, as aparências iludem e de ilusões já nós temos o saco cheio.