A matemática não explica a política

Ter, 03/10/2017 - 09:54


Apesar da sensação de que a política se vai reduzindo a uma trama urdida à revelia, senão mesmo nas costas do povo, de vez em quando a força da democracia irrompe, sísmica, provocando abanões que nos acordam para a inefável convicção de que a vontade dos cidadãos é factor decisivo no percurso das comunidades.
No distrito, como no país, observaram-se efeitos de dinâmicas políticas que estão longe dos condicionamentos que os tecnocratas querem impor à cidadania. Na realidade, a soberania não se expressa somente no âmbito do deve e haver, como se a vida não fosse mais do que a gestão imediata dos recursos materiais e dos confortos ou misérias que trazem às pessoas.
Não se vive só de pão, como sabemos de antigo pregador. Também se vive das emoções, das paixões, das raivas, assim como da procura da felicidade, referência indefinida, quase irracional, mas que move montanhas, mesmo quando não é claro o que nos espera depois. Todos alimentamos expectativas da alegria da aventura por caminhos de incerteza, mas também de confiança, porque o mundo não se faz só de dor, sacrifício e angústia.
No domingo pudemos acompanhar, na política distrital, dinâmicas que demostram que, mau grado as dificuldades, os eleitores não desistiram e continuam a participar na história desta terra.
Verificou-se que as diversas candidaturas integraram grande número de políticos bastante jovens, com propostas sérias para inverter caminhos de demissão e renúncia, que têm salpicado os últimos anos na gestão autárquica. Por outro lado, poderes instalados há bastante tempo sentiram quanto a rotina displicente, a arrogância ostensiva ou o simples comodismo podem ser fonte de derrota, porque a política deve ser um serviço permanente, dedicado e atento aos concidadãos.
Mirandela constitui exem-
plo de que a política não se fica pela matemática, não dispensa o afecto, a vibração, a autenticidade e a emoção.
A vitória de Júlia Rodrigues foi a grande surpresa no distrito de Bragança, se tivermos em conta que Benjamim Rodrigues, em Macedo de Cavaleiros, estava em crescendo nos últimos meses, perante um quase descuidado Duarte Moreno. O PS nunca chegara a constituir em Mirandela uma ameaça ao poder da direita desde que se realizaram as primeiras eleições locais, em 1976. Nem os próprios responsáveis distritais daquele partido apostariam convictamente nessa possibilidade, apesar do lugar meritório como deputada nacional e do charme da candidata.
Pelos vistos, há mesmo factores que não entram nas ponderações circunspectas de quem conduz os destinos das organizações políticas. Mas os eleitores não são simples portadores de boletins de voto com cruzinha encomendada.
Outros houve que quase lá chegaram, como Carlos Almendra em Vinhais, ou reduziram distâncias, como aconteceu em Alfândega da Fé e Vila Flor, onde candidatos também jovens prometem continuar a trabalhar para construir alternativas sólidas. Perante isto estaremos tentados a acreditar que estas terras podem ter futuro.

Teófilo Vaz