Educação e insistência no erro

Ter, 10/10/2017 - 11:02


Um balde de água gélida deixou pingados os entusiasmos que querem fazer crer que o país vive tempos de celebração do sistema educativo. Os resultados das provas de aferição, realizadas em três níveis de escolaridade, no fim do último ano lectivo e publicados há dias, repuseram na comunidade inquietações, dúvidas e lamentos sobre o que tem sido feito, para o bem ou para o mal nas escolas do país, determinando o presente e o futuro de gerações que, pensávamos, poderiam encarar a vida com recursos que os seus pais e avós nem sequer sonharam.
Há quarenta anos não se esperava que o acesso generalizado à educação redundasse no nivelamento por baixo e na demissão da conquista da dignidade e da autonomia para as gerações de Abril. Mas, quando se fizer a história das décadas de liberdade, ficará patente o descuido, ou pior, a deliberada estratégia de mediocratizar para continuar a reinar, que conheceu momentos de verdadeiro crime metódico, trazendo-nos à situação que hoje nos atormenta.
A tarefa até era simples, desde que houvesse verdadeira dedicação à nobre causa da educação ao serviço do saber e da cidadania. No entanto, o que aconteceu foi que se instalou o facilitismo, se promoveu a displicência, se desvalorizou o saber, se ridicularizou a escola de forma persistente, chegando-se à vergonha de impor aos professores a condição de bombo de uma festa torpe em que a indisciplina, o descaso e a boçalidade atrevida vão alastrando paulatinamente.
Ao mesmo tempo criaram-se condições óptimas para que se chegue ao oitavo ano sem capacidade para produzir um texto elementar, com clareza mínima, livre de coices estrondosos na ortografia e sintaxe, sem dominar conceitos básicos nas Ciências da Natureza e transformando a relação com a matemática num verdadeiro filme de terror.
Pelo que se percebe também a forma como os alunos de quinto ano lidam com a utilização da língua, falada e escrita, não deixa grandes esperanças para os próximos tempos. Se acrescentarmos as graves lacunas na História e Geografia de Portugal, facilmente vislumbramos o que acontecerá quando estes jovens tiverem que analisar dinâmicas mais amplas e complexas na história mundial.
Imediatamente foram anunciadas medidas para dar combate aos resultados pífios, retomando ladainhas com que a clique do eduquês encartado tem adormecido o país em geral e os professores, alunos e pais em particular, instalando um verdadeiro rodopio que entontece até à prostração definitiva.
Enquanto não se reconhecer que é preciso levar as crianças e os jovens, mas também as famílias, a valorizar a escola e o que lá se ensina e aprende, que é fundamental a responsabilização mútua em todo o processo, suportada na exigência e na dedicação ao trabalho, os resultados das aferições poderão ser cada vez piores.
O problema, aliás, arrasta-se há décadas e o país já está povoado de licenciados, mestres e doutores que padecem de dificuldades na construção de textos, na correcção gramatical e nos conhecimentos fundamentais das ciências e das humanidades semelhantes às que foram agora detectadas nos alunos. Afinal, tem-se persistido no erro, o que não é grande virtude para um sistema educativo.

Teófilo Vaz