Crónica de tempos de glória ou talvez não

Ter, 12/12/2017 - 10:39


Depois de arrasadora tempestade vêm sempre tempos de bonança, é o que clama sem cessar o lugar comum, com o fito de tranquilizar as vítimas de todas as desgraças que o tempo nos reserva.
Podíamos estar a falar da novíssima “Ana”, que deixou rasto pelo país, lembrando que os desígnios da natureza são o que são, sem emoções nem remorsos. Mas do que falamos é de tempestades sociais que também têm efeitos demolidores.
O país vive, desde há alguns anos, um processo dolorido dos efeitos da incúria, da displicência e da ousadia malevolente de grupos oportunistas, que se instalaram na direcção política com a complacência de todos nós. Foi uma tempestade que pôs em frangalhos a dignidade de milhões de cidadãos, confrontados com a humilhação do empobrecimento imposto, da fama de perdulários, da angústia do pecado da soberba que depois os precipitou numa quase avareza.
Eis que agora se proclama prodigiosa bonança. O tempo vai atapetado de musgo fofo, aromas redentores pairam no ar, convidando a alegrias de que tínhamos saudades. Mais uma bola de ouro para Cristiano, a sétima conquistada por heróis do rectângulo, um deles africano, mas português de alma, Mário Centeno a aportar, triunfante, ao Eurogrupo, que mexe com o ouro da terceira ou quarta Índia dos nossos sonhos, Guterres a secretariar uma organização tem-te não caias, Salvador Sobral a recuperar coração para novos cantos e o país designado como melhor destino turístico, troféu que promete mais magotes a encher a baixa de Lisboa, a Ribeira do Porto e, claro, o tal Algarve, com as companhias low cost a justificarem mais pistas, mais quilómetros de metro, mais hotéis, mais alojamentos temporários, a fortuna para quem a apanhar.
Só decrépitos e rabugentos pacóvios, inoportunos, enrugados e encanecidos, se darão ao trabalho de subir aos penedos para vislumbrar sinais de tragédias que chegarão na ressaca duma festa que parece embriagar até ao torpor. Lá adiante o país despertará em roncos de espanto, quando se voltar à dureza madrasta da vida real.
Infelizmente, o negro das cinzas vê-se do espaço, a obesidade mórbida invade as ruas, com o seu rosário de desgraças e vergonhas, a literacia está em recessão e as populações de três quintos do território estão abandonados à sua sorte, sem transportes, sem garantias de segurança, até que se fundam de novo, para sempre, com a terra donde vieram.
A violência ostensiva enche os dias de negrume, a corrupção sem freio e o videirismo sem escrúpulos estão por todo o lado, a comunicação social vai-se tornando um verdadeiro depósito de esterco, com os reis do futebolês rafeiro a pontificarem todos os dias em verdadeiras missas negras para assembleias de bestas sanguinolentas.
Entretanto, os hospitais continuam atolados de gente que espera horas a fio nas urgências, que é mandada de volta sem diagnósticos cuidados e ali regressa duas e três vezes, se não ficar pelos caminhos, situação que instala uma sensação de que o caos não anda longe.
A tenda das vaidades ainda não estará em fim de feira. Andaremos alegres e contentes até que chegue a próxima tempestade.

Teófilo Vaz