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Cooperação em águas de bacalhau

Ter, 17/05/2016 - 10:40


Apesar de múltiplas iniciativas, ao longo dos últimos anos, voltadas para a cooperação transfronteiriça, em nome de uma efectiva integração dos territórios, a caminho da Europa realmente unida, continua a sentir-se que os laços continuam frouxos.
Tivemos oportunidade de falar com o responsável espanhol da Fundação Rei Afonso Henriques, entidade que foi criada para mobilizar esforços no sentido da coesão inter-regional, aparentemente destinada a cerzir uma autêntica rede de suporte ao desenvolvimento das duas regiões (Castilla-Léon e Norte de Portugal), integrando outras instituições e organizações.
Pelos vistos, a cooperação tem-se ficado por aspectos pitorescos e festejos, pouco transformadores da inter-relação quotidiana das populações de um lado e do outro. Isto leva-nos a reflexões sobre a verdadeira capacidade de construção de uma união, objecto de muitos hossanas mas, afinal, reduzida a quase nada.
Valerá a pena relembrar um caminho, que já poderia fazer-se a pé enxuto, depois de mais de duas décadas. Desde logo, com a integração simultânea deste país e do vizinho na CEE, há trinta anos. Já antes se tinham desenvolvido esforços de cooperação. A geminação Bragança-Zamora foi um passo que semeou esperanças, mas que se tem ficado por um ramerrame, qual lamparina quase a ficar sem pavio, num templo descuidado pelos curadores. De facto, nas três décadas que já se completaram, na geminação pouco mais aconteceu que cortesias e meia dúzia de encontros, com jogos de bola à mistura.
Entretanto, num contexto mais amplo, surgiu o Eixo Atlântico, integrando a Galiza e o Norte de Portugal, que procura mobilizar recursos e investimentos para um território que também integra esta terra, embora instalada na sua periferia. O peso da Galiza e do Litoral Norte fazem-se sentir e, naturalmente, o nordeste volta, mais uma vez, à condição de ficar ao lado da mesa, à espera do que sobra.
A Fundação Rei Afonso Henriques, uma designação que pode suscitar equívocos para quem estudou a narração nacionalista da história peninsular, poderia constituir-se como um patamar de intervenção com possibilidades de ter efeitos práticos na coesão inter-regional, com vantagem para todos.
No entanto, ao fim de duas décadas, em resultado de derivas, centralistas em Portugal, com o esvaziamento das competências das CCDR e de um regionalismo que, do outro lado, ameaça fragmentar o estado espanhol, a cooperação caminha para o que dizemos, resignados, serem águas de bacalhau.
Ao mesmo tempo, os mais interessados, que seríam os povos fronteiriços, têm levado às lideranças políticos que não demonstram ter capacidade para subir à montanha donde se vislumbra o futuro, ficando-se pelo que alcança um só palmo à frente dos olhos.
Por isso, não procuram a conjugação de interesses, para bem das regiões e, especialmente, das suas gentes.
Só assim se compreende que, apesar da alta velocidade ferroviária logo aqui, na Sanábria e do túnel do Marão, com o que significa de alteração decisiva dos tempos e condições de deslocação, os responsáveis dos dois lados da fronteira não reconheçam o essencial, enredando-se em jogos de efémera glória. Situação agravada por responsabilidade dos poderes centrais, quando se sabe que a Fundação Afonso Henriques já programou iniciativas que foram inviabilizadas por recúos da Junta de Castilla-Léon, mas também pelas omissões da CCDRN, o que estará a conduzir à situação desesperante que o seu secretário geral refere, naturalmente com mágoa que aqui partilhamos.
Mais uma fonte de desilusão, quando vivemos uma primavera que nem as cerejas nos deixa morder.

Por Teófilo Vaz