Ao sol de Inverno

Ter, 12/02/2019 - 09:48


Fevereiro chegou molhado como manda a experiência milenar, mas agora refrescou e temos tido noites geladas, a lembrar Janeiro, com sol generoso pelas tardes, conforto breve para gente entrada na idade, com saudades do vigor que não cedia a um friasco qualquer.

Em cada povoação há sempre recantos onde não falta sol, quando o há, até que começam as vésperas, larguinhos que acolhem tagalhos de gente de cabeça encanecida, cajatos inseparáveis, dedos nodosos, quase secos, sempre a dar sinal, uma moinha quotidiana que impõe sono dormido aos soluços, para não falar das agulhas que atormentam os joelhos, as “cadeiras”, os calcantes e tudo o que é osso no corpo. Nas cidades, pelos bancos dos jardins, o cenário não é muito diferente, porque a vida foi dura para quase todos.

Lamentam-se as terras de poulo, os ventres inférteis, os gados miúdos e graúdos que se foram, as batatas do supermercado longe do sabor que dava ao tubérculo estatuto de nobreza ou os carrelos de chouriças que hoje, ditas caseiras, mais vezes são feitas de carne comprada do que de porcos criados na loja, cevados com beterrabos, abóboras, couves ou fruta que o Outono trazia com fartura.

Pouco mais há que fazer, já nem as pitas reclamam grão, não se sega erva para os coelhos e os pombais estão desertos, para mal do palato, que tem que se contentar com codornizes a saber a ração.

Entre suspiros e bocejos sente-se a resignação com todas as dores. Filho ou neto de algum dos circunstantes há-de vir, talvez num carro a gasóleo, graças a Deus, para o chegar ao Centro de Saúde e trazer as receitas habituais, ou a Bragança, Mirandela e ao Porto, a um especialista, conselho do médico de família. Ao menos também se passeia e se podem apreciar as novidades que florescem por aí abaixo.

Uma vez por semana ainda buzina, trepidante, a carrinha do padeiro, que pára para vender e dizer duas lérias. O rádio mantém-no em contacto com as notícias e, por isso, faz conversa com novidades frescas. Ele é o novo aeroporto, em Alcochete, comboios renovados onde os há, mais metro em Lisboa, onde as casas estão pela hora da morte. Um filho que lhe entrou para a PSP procura casa na Baixa da Banheira e prepara-se para contar com creche, jardim de infância e escolinha logo ali, no mesmo quarteirão.

Na aldeia a escola já fechou há dez anos. Mesmo na vila já fecharam salas de aula. Até nas cidades já sobram escolas, carregadas de memórias mas vazias de vida. Chegou a haver um café na aldeia, que também fechou. O homem do pão conta que as feiras pelo distrito estão a perder tendeiros, ficam lugares desertos no terrado, porque o negócio já não dá para o “pitrol”.

O sol já vai baixo, anunciando nova geada, as mulheres aconchegam os xailes escuros, os cajatos marcam o ritmo até aos escanos das lareiras, televisão pela frente, nas telenovelas, para aliviar desilusões.

Fica este instantâneo do destino a que nos condenou a irresponsabilidade de quem conduziu os destinos do país, longe do respeito por uma história de séculos e pela dignidade dos cidadãos, sem dar mostras de arrependimento. A grande farra vai continuar, mas as fragas serão testemunhas para sempre.

 

Teófilo Vaz