Precisamos de cuidar para voltar

Uma aldeia não é apenas um lugar, é memória, são as nossas raízes, é identidade, é família, é lugar de reencontro e festa.

10 set. 2026, 09:00

Para alguns pode ser difícil entender o significado de pertencer a uma aldeia, de ter um sítio onde independentemente de falar ou não diariamente com as pessoas, sabemos que vamos lá chegar e que tudo vai ser como antes. A aldeia é um sítio onde verdadeiramente nos sentimos em casa. Saber que és de uma aldeia é saber que os amigos de sempre vão lá estar, que quando chegas as perguntas como: “o que é feito de ti? Os teus pais estão bem? Quando vieste? Quando vais embora?” começam. É abrir a porta de casa e o vizinho ter deixado produtos da horta dele à tua porta. É perguntar a quem tem filhos: “Os teus garotos onde andam?” E estes responderem: “Por aí com os outros garotos.” Pertencer a uma aldeia é ter sentimento de pertença, é saber que mesmo que no fim do verão tenhamos de ir embora, no ano seguinte ou a próxima vez que voltarmos a nossa casa vai cá estar e que vamos ter pessoas com os braços abertos para nos receberem.

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Uma aldeia não é apenas um lugar, é memória, são as nossas raízes, é identidade, é família, é lugar de reencontro e festa.

No entanto, uma aldeia e as pessoas que cá vivem o ano todo não podem ser apenas recordadas quando quem vive fora vem passar as suas férias, tirar as suas fotografias ou até mesmo viver as festas da terrinha.

Uma aldeia é trabalhar o ano todo para que quando o verão chegue, a festa se possa realizar, é cuidar dos terrenos à volta para que se possam tirar fotografias. Uma aldeia existe durante 12 meses.

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Uma aldeia precisa de serviços, precisa de transportes, precisa de comércios, precisa de cuidados de saúde primários acessíveis, precisa de mais apoios aos nosso idosos que vivem isolados, precisa de mais ligações, oportunidades e de mais condições para os que cá nascerem e cá querem ficar, continuar aqui a viver.

Viver numa aldeia é ter paisagens bonitas, tradições e ter sossego, e ao mesmo tempo aceitar que tudo isto se converte em isolamento. É tirar fotografias à casa antiga, à fonte onde vamos beber desde crianças e à igreja e perceber que não temos os serviços básicos.

Será este o paradoxo duma aldeia? Os que cá não vivem terem o sentimento de pertença e os que cá ficam mantêm este sentimento de pertença vivo? 

Uma aldeia não significa apenas ter vida nalgumas semanas do ano, uma aldeia significa haver condições para viver, trabalhar, envelhecer e ao mesmo tempo ter aquele espírito de comunidade que não encontramos nas cidades.

Uma aldeia não é apenas o lugar que alguém deixou para voltar, é o lugar onde fica gente a cuidar do sítio onde todos os anos queremos voltar.

Não precisamos apenas de lembrar as nossas raízes, precisamos também de as cuidar.

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