Mais um foco de instabilidade

A Chechènia está neste momento à beira de um vazio de poder.

12 ago. 2026, 05:00

Com o hemisfério Norte a viver vários focos de guerra e arrastar alguns países para uma instabilidade atroz, levando mesmo a economia mundial a passar por situações impensáveis, eis que se levantam mais preocupações especialmente para a Rússia.

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Envolvida numa guerra com a Ucrânia por vontade própria há já quatro anos e indiretamente metida no conflito do Irão, já que de uma forma ou de outra o apoia, a Rússia vê-se agora perante mais um foco que pode gerar uma instabilidade enorme para Moscovo e de difícil resolução.

Como alguns se lembrarão, a Rússia e a Chechénia viveram uma guerra terrível durante anos o que levou à destruição da própria capital da Chechénia. Este conflito só acabou com a assinatura de um pacto entre o líder Checheno Kadyrov e Putin. Um acordo pessoal e não um acordo entre instituições. Isto dura há décadas e Moscovo tem recebido o apoio necessário da Chechénia e do seu exército sempre que necessário. Mas este acordo, sendo pessoal, acaba quando um dos líderes cair.

A Chechènia está neste momento à beira de um vazio de poder. Ramzan Kadyrov que tem governado a seu bel prazer e que mantém um exército próprio, está muito doente e pode cair deixando uma incerteza enorme e um vazio no poder da Chechénia. Isto não agrada nada a Putin. Com a possível morte de Kadyrov e o vazio no poder, levanta-se um foco de instabilidade grande e uma incerteza ainda maior na condução da Chechénia.

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O ressentimento checheno face a Moscovo, sempre existiu. Esta pequena região do Cáucaso, com religião e organização social muçulmanas, sempre se recusou a ser absorvida pela Rússia, chegando mesmo a tentar declarar a sua independência. Daqui resultou a guerra que levou ao acordo entre os líderes. Este conflito só foi aplacado graças ao medo e ao acordo assinado entre os dois líderes. Este acordo assenta em três pilares essenciais. O primeiro é financeiro. A Chechénia recebe muito dinheiro de Moscovo, dinheiro que serve para pagar ao exército particular de Kadyrov e serviu para reconstruir a capital Grozny e que afinal, tem sustentado toda a máquina de poder.

O segundo é militar. Kadyrov tem um exército próprio que supostamente está subjugado a Moscovo, mas que na verdade só é fiel ao seu chefe.

O terceiro pilar é o mais frágil. É o pacto assinado entre os dois líderes. E é frágil porquê? Sendo um acordo pessoal entre duas pessoas, o acordo acaba quando um deles cair. Se Kadyrov morrer, acaba o pacto e o que se segue é uma incógnita enorme que faz tremer Putin. Este receia que haja novamente uma revolta como antes de 1991, gerando uma crise interna grave para Moscovo, já que Putin enfrenta, de momento problemas terríveis com a guerra ucraniana.

Com uma economia muito fragilizada fruto do esforço de guerra com a Ucrânia e da conjuntura mundial devido à guerra do Irão, o que menos interessa a Putin é mais um conflito que agrave todo o seu sistema de guerra e a sua economia. Isto derrubaria, face ao povo russo, a sua forte liderança, que por si, é demasiado aparente neste momento.

O exército checheno e o seu líder foram cruciais no início da guerra contra a Ucrânia. Lembremo-nos nos ataques contra as cidades no sul da Ucrânia como Mykolaív e Zaporijia e dos massacres que por lá fizeram. Chamavam então, carniceiro a Kadyrov. Ele deu mesmo a cara à frente do seu exército, mostrando a Moscovo o seu empenhamento no conflito que, afinal, nada tinha a ver com a Chechénia. Era a postura decorrente do acordo pessoal entre os dois homens.

Pois este acordo pode estar prestes a soçobrar e a abrir mais um foco de enorme instabilidade para Putin e, quem sabe, mais um foco de guerra, já que o ressentimento checheno para com Moscovo nunca deixou de existir.

Certo é que Kadyrov vive momentos trágicos de uma doença grave que pode levar a um vazio de poder na Chechénia e ao cair de um acordo de décadas gerido por interesses de lado a lado, mas que, no fundo, esteve sempre ligado por um fio demasiado débil.

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