De militante a arguido
Opinião

De militante a arguido

  • 3 de Junho de 2026, 09:00

Não posso fcar indiferente quando vejo as imagens da Polícia Judiciária a entrar na sede do meu partido. Ficaria igualmente incomodado se fosse na sede de qualquer outro partido. Quem acredita no nosso sistema político e democrático não é isso que pretende ver, nem se pode sentir regozijado porque a polícia entrou na sede “de outro” e não na nossa.

Não porque a Justiça não deva fazer o seu trabalho. Pelo contrário. Numa democracia saudável, a Justiça deve investigar sempre que existam suspeitas fundadas, independentemente do cargo, da infuência ou da fliação partidária de quem é investigado.

O que me inquieta é outra coisa. É a rapidez com que alguns transformam uma suspeita numa condenação e um arguido num culpado. É a facilidade com que um militante passa a representar milhares de outros militantes, tornando todos culpados por associação. É a tentação de concluir que, se alguns falharam, então todos são iguais. Não, não são!

A corrupção existe e infelizmente continuará a existir enquanto houver pessoas dispostas a utilizar o poder e os recursos públicos em benefício próprio, enquanto houver quem coloque interesses particulares ou corporativos acima do bem coletivo.

Nenhum partido está imune. Muito menos os partidos que habitualmente exercem o poder. Esses estão naturalmente mais expostos porque decidem e assumem responsabilidades. A narrativa daqueles que nunca exerceram poder e, por isso, se apresentam como diferentes ou imunes, simplesmente não convence porque não foram testados. E nenhuma ideologia funciona como vacina contra a desonestidade.

Cultivar a ideia, insistindo de forma populista que todos os políticos são corruptos e todos os partidos são iguais, leva-nos perigosamente à recusa de muitos em participarem civicamente e assumirem responsabilidades políticas e públicas. Afasta as pessoas, afasta os bons. Isso é talvez ainda mais perigoso do que a própria corrupção. Traduz-se, cada vez mais, em partidos políticos vazios de gente capaz, habilitada, séria e genuinamente disponível para servir. O descrédito generalizado da política destrói a própria democracia.

Ao longo dos anos de militância conheci dezenas de militantes partidários. Mulheres e homens que dedicam horas da sua vida aos seus partidos sem qualquer benefício pessoal. Pessoas que participam em campanhas, em assembleias, que foram eleitas e que se bateram de forma abnegada por causas e porque acreditam, sinceramente, que a política pode melhorar a vida coletiva. Pessoas competentes, que deram, e continuam a dar, o seu melhor. Seria profundamente injusto que fossem julgadas pelos atos de quem eventualmente tenha prevaricado. Quem participa na vida política por convicção e de forma séria não pode ser tratado por cúmplice de comportamentos condenáveis só porque tem a mesma cor no cartão de militante.

Mas os partidos também devem repensar a forma como trazem pessoas para o seu interior. Já tive oportunidade, noutro texto de opinião, de falar sobre a diferença entre a militância por convicção e adesão aos valores e a militância por conveniência momentânea, usada apenas para satisfazer interesses pessoais ou circunstanciais. Essa falta de escrutínio deixa muitas vezes os partidos vulneráveis. Por isso, os partidos não se podem furtar às suas responsabilidades. Devem fazer as refexões necessárias, combater comportamentos pouco dignifcantes e distinguir-se sempre pela verdade, pela transparência e pela ética.
Façamos, pois, aquilo que se exige em democracia: tolerância zero para a corrupção e tolerância zero para a demagogia, sem confundirmos uma com a outra para não perdermos ambas.

Um militante partidário não é necessariamente um arguido ou um corrupto. Mas um arguido ou um corrupto pode, eventualmente, ser um militante.

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