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Nuno Fernandes

Contabilista e gestor

Porque é que Portugal deve produzir azeite em vez de pão

Porque é que NÃO produzir pão em Portugal justifica que a globalização desta vez veio para ficar

09 set. 2026, 05:00

Nenhum país, empresa ou pessoa dispõe de recursos infinitos, nem mesmo o Elon Musk.

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Tudo no universo conhecido está limitado de alguma forma, excepto talvez a estupidez. Escolher fazer uma coisa implica, obrigatoriamente, desistir de outra. Quem dedica um sábado a limpar a própria casa poupa o que pagaria a um profissional, mas abdica de estar com a família, de descansar, trabalhar ou fazer algo que lhe dê mais prazer.

Em economia, a isto chama-se custo de oportunidade: o valor daquilo a que se renuncia ao fazer uma escolha. Esta regra simples explica não só as finanças pessoais como a razão pela qual os países compram e vendem produtos entre si.

Um país/empresa/pessoa tem vantagem absoluta quando consegue produzir algo de forma mais rápida, barata ou eficiente do que os outros. Graças ao clima e ao solo, Portugal produz um litro de azeite com muito menos recursos e mais qualidade do que a Alemanha. À primeira vista, parece lógico que cada nação se limite a fabricar apenas aquilo em que é a melhor do mundo. A economia, porém, não funciona assim.

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O conceito decisivo é a vantagem comparativa. Imaginemos: a Dra. Mariana é a melhor advogada da cidade, por coincidência, também digita documentos muito mais depressa do que o seu secretário, o João. Tem, portanto, vantagem absoluta nas duas tarefas. Deve a Mariana passar o dia a escrever os próprios relatórios? Uma hora no tribunal rende-lhe 200 euros à hora e escrever relatórios rende 20. O custo de oportunidade de se ocupar das tarefas administrativas é altíssimo. A decisão racional é contratar o João, mesmo sabendo que ele é mais lento. Ao concentrar-se no que lhe dá maior retorno e delegar o resto, a Mariana ganha mais e o João mantém o emprego. Ambos ganham (teoria dos jogos).

O que a advogada faz no escritório é o que os países fazem no mercado global. Portugal, com sol abundante e terra mediterrânica, tem condições naturais para o azeite, vinho, cortiça, turismo.... A Alemanha, rica em capital e tecnologia, concentra-se em máquinas, automóveis e produtos industriais. Mas Portugal também se especializou em formar com excelência engenheiros informáticos e enfermeiros, que, derivada dessa vantagem competitiva que a Alemanha tem, acaba por “exportar” para lá.

Quando os governos ignoram estas regras e tentam forçar a produção de tudo dentro de portas, o resultado costuma ser o empobrecimento. Quantos de vocês não leram ou ouviram falar da autonomia estratégica alimentar? “Ahh temos de produzir o que comemos” “onde já se viu, importarmos cereal, temos terras tão boas pra plantar pão”. Portugal nos anos 30 lançou a campanha do Trigo. O Estado Novo quis alcançar a autossuficiência em cereais para deixar de importar pão. Deu subsídios, mandou limpar terrenos e impulsionou a plantação de trigo. Naturalmente a produção subiu. A médio prazo, revelou-se um desastre financeiro e ambiental. O clima e os solos portugueses não têm aptidão natural para o trigo em grande escala, ao contrário das planícies férteis da Europa Central. Para produzir um cereal em que o país era pouco eficiente, abdicou-se de usar essas mesmas terras para oliveiras ou sobreiros, culturas em que Portugal era (e é) claramente mais competitivo. O custo de oportunidade foi enorme. O resultado foi a erosão e a degradação dos solos e uma produção de trigo cara, só viável porque o Estado injetava dinheiro público para cobrir prejuízos.

A lição permanece válida. Tentar produzir tudo e ser totalmente independente é uma ilusão que sai cara. A especialização gera riqueza. Quando um país se concentra onde tem vantagem comparativa, e usa esse rendimento para importar o pão ou os automóveis, está a utilizar de forma inteligente os seus recursos limitados. A abertura ao comércio e a troca com outros países não é fraqueza: é a estratégia económica mais racional para fazer o dinheiro e a terra renderem mais.

Na atual conjuntura de tensões geopolíticas e impulsos protecionistas, a globalização permanece inevitável porque as economias estão profundamente interligadas. Isolar-se implica custos elevadíssimos em produtividade e bem-estar. A especialização e a troca continuam a gerar ganhos superiores a qualquer tentativa de autonomia alimentar ou outra qualquer que  se queira criar. Mesmo quando os Estados erguem barreiras, a lógica económica e a interdependência tecnológica forçam a manutenção de laços comerciais, tornando a integração global praticamente incontornável.

Por muito que estados autocratas ou proto-autocratas tentem criar esse isolamento, através de tarifas ou barreiras, o ser humano vai procurar sempre aquilo que a natureza lhe impõe, a forma de optimizar a sua vantagem competitiva.

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