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David Fernandes

Comentador do programa Parlamento Jovem da Rádio Brigantia

Do campo para a mesa: a história da Mirandesa

Na estreia do programa Cá se Lavra, da Rádio Brigantia, fomos conhecer uma produção de bovinos de raça mirandesa.

21 out. 2026, 05:00

Foi em Vila Meã, bem no centro da Lombada, que encontrámos a AGRIVMLOMBADA, um projeto familiar que dura há décadas e que é um exemplo de bem tratar a raça mirandesa.

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Henrique Barreira é o patriarca da família e admite que conciliar o primeiro trabalho com a vida na aldeia não é tarefa fácil. “Nós gostamos. É preciso muita dedicação, muita paixão, porque não é fácil conciliar as duas coisas” diz o produtor. No lado oposto da geração está Gonçalo Barreira, o elemento mais novo da família. Aluno da Academia Militar, não lhe passa pela cabeça que, num futuro próximo, haja um desaparecimento da raça mirandesa em Vila Meã. “Acaba por ser um passatempo. Quando nos juntamos nos concursos, seja nos concelhios ou no nacional, já não vemos gente jovem” remata o jovem produtor. Para o agricultor, as novas gerações não olham com bons olhos para esta atividade. “Eles vêm isto como uma coisa acabada, uma coisa de gente idosa” disse o jovem.

Segundo os dados de 2024, havia cerca de 5200 fêmeas adultas de raça mirandesa e 258 machos distribuídos por cerca de 320 criadores. Para Valter Raposo, Secretário Técnico da Associação de Criadores de Bovinos de Raça Mirandesa (ACBRM), até 2021, o número de fêmeas estava estabilizado. Com a pandemia COVID-19 e o envelhecimento demográfico dos produtores, em cerca de dois anos, o número de fêmeas foi reduzido em cerca de 20%. Para este responsável, os apoios à manutenção da raça não são suficientes. “As mudanças de quadro de apoio vieram promover a redução do efetivo. Menos vacas validam mais hectares nos pagamentos do Pedido Único, o que levou os produtores a restruturarem as suas explorações e diminuírem o efetivo” disse o responsável da associação.

Um dos principais usos da raça mirandesa nos dias que correm é a produção de carne. No entanto, na visão dos produtores, é cada vez mais difícil manter os animais devido ao baixo valor pago pelo quilograma (Kg) da carne. “(a carne) Não paga a farinha que gastamos, mas nó gostamos. É um vício ter os animais, se calhar, se nós vivêssemos só disto, não seria fácil aguentar esta raça. Os apoios não são muitos. O gasóleo e o preços das rações estão sempre a subir, não é fácil aguentar isto” diz Henrique Barreira.  Para Valter Raposo, da ACBRM, os custos de produção vieram dificultar a rentabilidade dos produtores. “Apesar do preço da carne ter aumentado, com os conflitos internacionais, os fatores de produção também têm aumentado. A atividade não dá para fechar, os produtores têm 365 dias por ano, têm de alimentar os animais. Os apoios dados às raças autóctones servem apenas para colmatar a diferença de kgs do vitelos de outras raças” diz o responsável técnico.

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A realização dos concursos concelhios da raça mirandesa é uma das vertentes que dá vida aos concelhos e aos produtores. Com o objetivo de valorizar e manter a raça, os municípios do solar (Miranda do Douro, Vimioso, Vinhais, Macedo de Cavaleiros, Mogadouro e Bragança) têm mantido uma aposta neste evento. O concurso nacional de bovinos de raça mirandesa realiza-se no último fim de semana de agosto, de forma rotativa, nos seis concelhos do solar. É nestes concursos que se mostra o melhor de cada exploração. “Monetariamente, os prémios não são rentáveis. Muitas vezes nem paga o transporte” diz Ricardo Barreira. “Só se vai pelo prazer e pelo gosto em demonstrar os animais” afirma o produtor.

Outras das dificuldades levantadas pelos produtores foi a presença e estragos dos animais selvagens. “Nós chegamos às terras e muitas vezes não temos cá nada. Umas vezes os veados, noutras o javali. Nós já semeamos o dobro. Já fui algumas vezes a participar ao ICNF, só que não sei se me deram ou não, nunca vi nada” diz Henrique Barreira.

  O Cá se Lavra é um programa de agricultura de David Garcia Fernandes com edição e imagens de Rui Mouta.

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