Truz, truz, Ormuz
Muito se tem falado de Ormuz, nos últimos tempos, um estreito marítimo da maior importância geopolítica, agora reforçada com o conflito político-militar em curso naquelas paragens.
Estreito que, até mais ver, continua nas mãos de aiatolas iranianos, que não são flores que se cheirem, que dele se pretendem servir como se de uma gigantesca torneira de petróleo se trate, para abrir, ou fechar, a seu bel-prazer, convertendo, abusivamente, o histórico Golfo Pérsico num mar interior iraniano, ignorando que a longa margem que não lhes pertence é território de outros Estados.
Situação que afecta, gravosamente, os interesses estratégicos e económicos dos americanos e dos seus aliados petrolíferos da região, liderados, nesta dramática circunstância, pelo desbocado Donald Trump, que no Médio Oriente encontrou palco privilegiado para as suas diatribes e palhaçadas. Perante a cúmplice passividade, para não dizer indiferença criminosa, dos europeus, visivelmente divididos e perturbados, embora igualmente afectados, enquanto russos e chineses procuram retirar deste imbróglio geopolítico as vantagens possíveis, como é seu timbre.
Tão bizarro e complexo é o quadro que mais parece que Trump e os aiatolas brincam entre si, sadicamente, para desespero do resto do mundo. Ainda assim, verdadeiramente empenhado e calculista só mesmo Benjamin Netanyahu que faz jus à gesta mítica do seu povo, em contraste com as encenações dos demais que, de tão falsas e extravagantes, lançam dúvidas sobre quem mente e quem fala verdade, embora mais certo seja todos mentirem.
Mundo injusto e cruel, o nosso, em que, entre outras tragédias, 673 milhões de pessoas, o que corresponde a 8,2% da população mundial, enfrentam fome severa, isto segundo o relatório da ONU “O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025 (SOFI 2025)”.
Entretanto, até ao momento em que esta crónica é escrita e desde que a Forças Aérea Americana e a Força Aérea Israelita lançaram ataques devastadores sobre a estrutura militar iraniana sem obterem os resultados políticos pretendidos, Donald Trump persiste em encarar Ormuz como a porta principal do palácio dos aiatolas, a que continua a bater com um hesitante truz, truz, sem que se acendam as luzes que pretende na tenebrosa mansão.
Outra luz se faz, contudo, sobre a história de Ormuz que diz respeito aos portugueses orgulhosos do seu passado, embora a outros nem tanto. Vale bem a pena reler, a este propósito, Elaine Sanceau, universalmente reconhecida como um dos expoentes da historiografia portuguesa, a quem se devem nada menos do que trinta e oito vultosos estudos, dos quais vinte e oito sobre o majestoso século dezasseis português.
Ormuz que o nosso Afonso de Albuquerque, que é tido como um dos mais brilhantes estadistas da História Universal, a par de Ptolomeu I e de Bonaparte, conquistou em 1507, para ali estabelecer uma fortaleza, não para comprar e vender petróleo, mas para controlar todo o comercio da época, especiarias especialmente, que na Europa de então eram pagas a peso de oiro.
Mais do que isso, na opinião de avalizados historiadores, Ormuz, na conceção genial de Afonso Albuquerque, não seria apenas mais um entreposto comercial, mas a chave de um importante sistema de domínio marítimo, em que se incluíam Aden e Malaca, considerando que quem dominasse estas três posições controlaria o principal eixo económico de todo o Oriente.
De salientar que Albuquerque não dispunha do apoio de satélites ou de redes de comunicação, muito embora os meios navais e a cartografia portuguesa da época fossem o que havia de melhor.
Contudo, não se fique com a ideia de que os portugueses deixaram apenas fortalezas e entrepostos comerciais, por aquelas paragens. Bem pelo contrário, muitas são as realizações positivas que Portugal ergueu por esse mundo de Cristo além e não apenas malfeitorias, como pretendem, presentemente, uns tantos intelectuais, ideologicamente contaminados.
Ocorre-me destacar, a este propósito, a primeira escola médica do Oriente, a Escola Médico-Cirúrgica de Goa, criada pelo físico-mor Matheus Cesário Rodrigues Moacho, considerada uma das mais antigas faculdades de medicina da Ásia e que tem sio esquecida no debate político-partidário.
Escola que desde sua fundação em1842, até 1963, formou mais de 1.327 médicos e 469 farmacêuticos, contribuindo significativamente para a saúde de tão vasta região.
Enfim. Muitos factos historicamente relevantes merecem ser condignamente celebrados, por diferentes formas e em diversos momentos, enaltecendo a história do passado, a democracia do presente e o humanismo e a universalidade dos portugueses de sempre e de hoje.
E que em nada se comparam com o Ormuz do presente.
PS.: A este propósito, vale a pena também ler, no jornal Público de 6 de Maio de 2026, o artigo sobre o jesuíta Francisco Pina (1585-1625), assinado por Rui Campos Guimarães e Eduardo Marçal Grilo.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

