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“O peso desta farda e a responsabilidade é muito grande”

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  • 28 de Abril de 2026, 10:57

Entre um efetivo envelhecido, a dificuldade em captar novos agentes, a PSP de Bragança enfrenta vários desafios. Ainda assim, o comandante assegura que o distrito continua entre os mais seguros do país e destaca medidas de prevenção, como a videovigilância.

Jornal Nordeste: Há cerca de um mês, no 150.º aniversário do Comando Distrital da PSP de Bragança, queixou-se da falta de polícias e referiu que o efetivo, tem uma média de idade superior a 50 anos. Como se reverte este cenário?

Rui Rocha e Silva: Qualquer comandante queixa-se sempre dos meios, é uma questão quase cultural. Se desejaria ter mais 50, com certeza. É aquilo que eu gostaria. Agora, com aqueles que eu tenho, próximo das duas centenas, se me perguntar se consigo fazer o trabalho, digamos, válido, palpável, objetivo, eu digo-lhe que sim, que consigo, porque os meus profissionais são bons. A média de idades é elevada, é, tendo em conta a realidade dos polícias e o grau de exigência que lhes é pedido em termos de aptidão física e psicológica. No entanto, garantidamente que o serviço policial que é desenvolvido aqui pelos meus polícias é de qualidade, é válido e é reconhecido quer pela população, quer pelas instituições com quem nós trabalhamos todos os dias.

O que está a falhar na atração de jovens para a PSP?

A atratividade para a função policial resulta um pouco daquilo que é a questão geracional. A juventude hoje em dia exige ou auto-exige um equilíbrio grande entre a questão profissional e a questão pessoal/familiar.

Na PSP a missão é muito específica e exigente e o escrutínio é muito grande. Depois a questão das opiniões que viralizam nas redes sociais acabam por transmitir uma ideia um pouco errada daquilo que é a função policial e as pessoas não querem esse compromisso. A missão policial é essencial em qualquer sociedade e é um orgulho fazer parte de uma instituição com mais de 150 anos, desenvolver um trabalho muito em prol da população e em que o sacrifício pessoal, o empenho, a dedicação, vem ao de cima, todos os dias. Nós, muitas das vezes, e eu assisto ao longo destes 35 anos de carreira, já vi imensas situações em que as pessoas põem em primeiro lugar a vida dos outros, e escandalizam um pouco a sua própria vida, a sua integridade física, o descanso, o que seja, exatamente porque vestem esta camisola e o peso desta farda e a responsabilidade é muito grande. Estou convicto que a juventude vai perceber que efetivamente uma sociedade sem segurança não existe. As pessoas só podem ser livres num país democrático se houver segurança.

Por exemplo, um jovem que parte de Trás-os-Montes para a região de Lisboa, e que saberá, à partida, que não regressará tão cedo à sua terra. Este é também um dos sacrifícios iniciais que fazem parte da profissão?

Sim, isso é um facto, até porque a gestão de recursos humanos na PSP tem que ser baseada exatamente nesta mobilidade natural e obviamente assenta no rejuvenescimento necessário dos profissionais da PSP. Aquilo que nós sabemos e toda a gente sabe, isto aqui não é segredo para ninguém, as pessoas acabam o curso de formação de agentes, e vão robustecer os comandos, neste caso Lisboa, que é só o comando maior em que o grau de exigência é muito grande e daí aquela razão de que Lisboa tem muito efetivo, porque realmente é necessário. Se nós compararmos Lisboa com Bragança, é substancialmente diferente o grau de exigência e obviamente o número de efetivos também. Portanto, as pessoas mentalizam-se que efetivamente é assim, sabem de antemão.

Mas poderia ser diferente ou era necessário que fosse diferente?

Não é fácil, não há passe de mágica. Não é estalar dos dedos e as pessoas vêm para a polícia e são colocadas onde querem. Isso não existe.

Mas deveria haver uma discriminação positiva com territórios do interior?

Isso é um passo a dar, é uma das possibilidades. É fazer eventualmente concursos direcionados para determinadas áreas. No entanto, há expetativas das pessoas que estão em Lisboa neste momento, em virem para Bragança. Enquanto esses que estão em Lisboa que querem vir para Bragança e não vierem, como é que se abre um concurso para Bragança? Tem que haver aqui algum cuidado nesta gestão de recursos humanos.

Mas essas pessoas, quando regressam para este território, também já têm mais idade?

Vêm com mais experiência. Porque quando uma pessoa vem de um contexto policial de elevada exigência, como é Lisboa, Porto ou Setúbal, ou outro comando com a mesma dinâmica policial, quando chega a Bragança já traz um know-how muito relevante e que ajuda efetivamente aqui a dar alguma dinâmica diferente. Temos de valorizar aquilo que é o capital humano, a experiência, o saber que vai sendo cultivado ao longo do tempo e que acaba por dar uma capacidade de resposta diferente, acaba por demonstrar que efetivamente a PSP é mais do que aquilo que se vê. Não vejo a idade elevada no Comando de Bragança como uma fatalidade. Antes, pelo contrário, por muitas das vezes nós temos um conhecimento dentro de portas, temos é que saber rentabilizá-lo.

Durante o aniversário do Comando referiu, aos jornalistas, que a criminalidade não tinha aumentado, mas segundo o Relatório Anual de Segurança Interna de 2025, Bragança está entre os três distritos do país onde a criminalidade mais aumentou, por outro lado continua a ser um  dos mais seguros. O que provocou este aumento?

Por vezes são situações muito pontuais, pequenos fenómenos criminais que passam e obviamente deixam ficar a marca e os números não podem ser apagados. As situações efetivamente ocorrem, nós temos que perceber é se este aumento é algum fenómeno criminal emergente que deve merecer uma atenção especial, sob pena de não perdermos o controlo. Temos é de perceber o que é que está nas génesis de alguns fenómenos criminais.

Este pequeno aumento, e estou a falar de Bragança e Mirandela, cidades, não é relevante. Se andamos mais na rua, mais interventivos, obviamente que os crimes vão aumentar. Crimes rodoviários, crimes de tráfico de droga, os crimes de audiência. Portanto, estamos a falar de contextos criminais que somos nós próprios, pelo desenvolvimento da nossa atividade, que vai elevar esses valores. Portanto, quando nós temos durante um ano um aumento significativo de detenções, motivadas pela nossa intervenção, nós assistimos a um elevar de 24,8% da criminalidade.

A baixa criminalidade pode levar a uma falsa sensação de segurança?

Não, não creio. Até porque as pessoas estão cada vez mais sensibilizadas para aquilo que são os seus direitos e daí e pegando um bocadinho nesta sensibilização e nesta grande capacidade que as pessoas começam a ter de se dirigirem à polícia, de denunciarem, acaba por ter um efeito natural no aumento dos casos. Porque se não aumenta, alguma coisa se passa. Ou efetivamente está tudo bem, ou as pessoas simplesmente não denunciam. São as cifras negras. Mas vemos que as pessoas estão mais sensibilizadas pelos seus direitos e confiam nas instituições,  um exemplo são os crimes de violência doméstica que aumentaram. Um caso já é demais, como nós sabemos. Agora, 17 casos num ano, em duas cidades (Bragança e Mirandela), com algum volume de população.

A Câmara Municipal de Bragança constituiu um grupo e trabalho com a PSP designado “Noite Segura”, em que fase é que está este grupo?

As reuniões já começaram. É muito importante para nós também percebermos onde é que estão os focos de problemas, de que forma é que podemos amenizar um pouco os efeitos e também, obviamente, exercer alguma pedagogia junto das comunidades que mas gravitam em torno da noite. A título de exemplo, nas celebrações dos jovens na Semana Académica, no Nerba, fizemos uma pedagogia direcionada para as pessoas para verificar se estavam em condições ou não para conduzir. E as pessoas olham para a polícia não como aquele “bicho-papão”, mas que estavamos ali para ajudar.

E também é importante passar essa mensagem?

É, para as pessoas perceberem que se calhar temos sintomas, mas depois de fazer o teste dizem “afinal não posso conduzir”. Nós conseguimos aqui alertar por um lado e prevenir por outro. Porque efetivamente houve pessoas que verificaram que estavam mal e chamaram um uber ou um táxi. E portanto, este trabalho que está a ser feito com a Câmara não é apenas na questão da noite segura,mas também para conferir mais segurança a quem usufrui dos divertimentos noturnos. Até porque a população residente à volta desses estabelecimentos o que é que quer? Descanso. Tem que haver este tal equilíbrio entre o direito ao descanso e o direito à diversão.

Quando se pretende praticar um crime, mas sei de antemão que tenho câmaras sobre a minha cabeça, eu vou pensar duas vezes.

Esse grupo de trabalho também se foca na questão da mobilidade, certo?

O grupo de trabalho visa ver os os eixos viários aqui dentro da cidade, eventualmente repensar alguma fluidez e, portanto, o nosso contributo é, do ponto de vista técnico, perceber o que é que pode melhorar e depois a Câmara, do ponto de vista mais legislativo ou mais executivo, irá obviamente promover as alterações que forem achadas necessárias. Celebramos um protocolo com o município, que tem a ver com a mobilidade sustentável, que integra, nomeadamente, a questão da videovigilância em espaço público. Nós gostamos de chamar videoproteção, porque a videovigilância é sempre impensável e as pessoas têm algum receio. Mas é uma ferramenta tremendamente eficaz no combate à criminalidade.

Mas como é que vai contribuir?

Muito simples. Quando se pretende praticar um crime, mas sei de antemão que tenho câmaras sobre a minha cabeça, eu vou pensar duas vezes se vou praticar ou não aquele ato. E, portanto, a videoproteção visa um pouco promover esta sensação de “eu não posso fazer tudo, o que me dá na ideia”. Por outro lado, tudo aquilo que é prova que pode ser adquirida através destes sistemas. Os meios tecnológicos podem e devem ser utilizados em sede de processo-crime e resultam como um meio de prova muitíssimo válido. Se nós conseguimos identificar os autores, está materializado em filme ou em vídeo ou em fotogramas a prática daquele crime, não há dúvidas para quem vai decidir. Portanto, é uma ferramenta quer para nós, quer para a autoridade judiciária, para poder decidir bem, rápido e com eficácia.

Mas não colocará em causa a privacidade da população?

Se pensarmos um pouco, isso é um mito e as pessoas vão criando esse mito.  Se nós vamos a um centro comercial, vamos a um aeroporto, que está cheio de câmaras, as pessoas deixam de ir? Não. As pessoas vão para os aeroportos porque vão viajar, estão de boa-fé.

Não tenho que ter medo de ter uma câmara que, digamos, que tem uma vigilância sobre aquilo que eu faço na rua. Da mesma forma que tudo o que é a gestão das imagens é feito com critério, é feito com legalidade e não está acessível a toda a gente. Está à PSP, em determinados fundamentos, em ocasiões que efetivamente assim o justifiquem, e as imagens são apagadas, decorre da própria lei, portanto não há aqui uma invasão de privacidade.

Onde é que seria colocada essa videovigilância?

Estamos a fazer o estudo dos casos onde efetivamente entendemos que face ao acumular de fatores criminogénios ou até visibilidades, estão concentradas em determinadas artérias, e será nessas que teremos de ter maior vigilância. Já temos algumas que vão de encontro ao número de câmaras que vão ser colocadas na cidade. A componente tecnológica das próprias câmaras vai ter o seu peso na respectiva colocação. E, portanto, daqui a um ano, se fizermos uma revisão do sistema e verificarmos que são necessárias mais, pois com certeza faz-se um upgrade ao sistema com a mesma facilidade com que se fez no primeiro dia.

Mas já há alguma data para a instalação das câmaras?

Não vamos avançar com datas porque carece de algumas questões nomeadamente técnicas. Temos uma sala que está preparada para receber o sistema, que está em fase de aquisição pela Câmara Municipal de Bragança e depois falta é a questão da  ligação à nossa central, onde vai ser todo o processo gerido e centralizado aqui na PSP. A Câmara Municipal não tem acesso às imagens.

Há cada vez mais atropelamentos na cidade. Qual é o motivo?

Não conseguimos aferir com rigor o que é que está na génese dos atropelamentos. Mas é preciso melhorar a sinalização que é um fator que está a ser estudado, no âmbito do grupo de trabalho. Mas também temos de consciencializar o próprio peão. Ou seja, o peão não pode atravessar de forma descuidada.

O peão não tem uma prioridade absoluta. Nas passadeiras tem que demonstrar efetivamente que quer passar, tem que verificar se o carro que vem em circulação consegue parar com segurança. Se nós virmos que efetivamente os atropelamentos acontecem num sítio concreto, aí sim temos que ver se há algum problema na via, se a sinalização é adequada ou não, se é uma zona de maior aglomeração. Este ano, segundo dados da polícia, não do RASI, foram registados mais quatro atropelamentos, comparativamente com o ano passado. É muito? Se calhar não é.

Dependendo da gravidade…

Este ano, contrariamente ao ano anterior, tivemos zero mortos. E no ano passado tivemos três.

Mas houve há pouco tempo um caso de um atropelamento aqui na cidade, onde também o condutor fugiu e não prestou auxílio à vítima. Estes comportamentos não deveriam também ter peso nessas estatísticas e ser motivo de preocupação?

Sim, mas isso pode ser motivado por várias razões. Por medo, por estar embriagado, ou estar sob a influência de alguma substância psicotrópica. As pessoas sabem que fizeram mal, e portanto o crime de omissão de auxílio é motivado pela emoção.  Esse caso acabou por ser identificado e obviamente que para além da questão do atropelamento, que é o que é um dano voluntário, que é um crime que está previsto e punido pelo Código Penal Português, mas como se não bastasse a questão do dano corporal, ainda tem a omissão de auxílio, que é mais um crime e sobre o qual irá responder na justiça.

Este ano apenas tivemos um aumento de 21 acidentes, comparativamente aos dois anos, sendo que, por exemplo, em Mirandela tivemos menos 15 colisões do que no ano passado. Não há neste momento um problema nem de atropelamentos, nem de acidentes. Os acidentes ocorrem normalmente em qualquer cidade do país. Quando assistimos a um incremento do número de viaturas numa cidade, naturalmente que a probabilidade de colisões, de atropelamentos, de feridos graves, feridos leves aumenta. Aquilo que assistimos em Bragança não é de todo problemático.


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Written By
Rita Teixeira