O lugar da mulher é onde ela quiser!
Celebramos todos os anos o 25 de Abril de 1974 como o grande ponto de viragem da nossa história recente. Evocamos a liberdade e a igualdade conquistadas, mas há dimensões que permanecem por cumprir porque simplesmente há ideias que atravessam gerações e não há revolução que dê cabo delas. A responsabilidade de gerir o lar estar atribuída à mulher é o exemplo mais gritante.
Durante décadas, construiu-se uma narrativa simples: ao homem caberia o sustento, à mulher a gestão do lar. Uma divisão apresentada como funcional, quase biológica, como se cozinhar, lavar ou cuidar fossem competências inscritas no código genético feminino. A revolução derrubou o regime, mas não eliminou estas ideias. Muitas sobreviveram, adaptadas aos novos tempos, com uma aparência mais suave, mas com a mesma raiz.
Hoje, dificilmente alguém dirá abertamente que uma mulher deve ocupar determinado papel, mas muitos, e infelizmente até mulheres, continuam a pensa-lo. E a dizê-lo. O que mudou, nestes casos, foi a linguagem. Tornou-se mais polida, mas o conteúdo resiste e vai-se manifestando.
Ora, assim sendo, se é “natural” que a mulher seja responsável pela gestão doméstica, as almas que nutrem estas ilustres teorias podem explicar-me como se organiza um casal de duas mulheres? Uma delas é designada por alguma força misteriosa como a fada do lar? Ou há possibilidade de alguma delas, do nada, um dia acordar investida de poderes domésticos superiores? E com base em quê? No signo? No ascendente? Na altura? Na habilidade para escolher detergente? E num casal de dois homens… o que é que acontece? O pó acumula em cima do móvel da televisão até se conseguir criar um terreno fértil que dê para construir uma mini horta? Vive-se exclusivamente de take away, delivery e refeições que é só enfiar no microondas e esperar pelo plim? É possível que alguém morra de fome numa espécie de protesto involuntário contra a ausência de uma figura feminina? Ou, surpreendentemente, ajustam rotinas e dividem tarefas sem que o universo entre em colapso?
Pois. É isso. As tarefas organizam-se. Negociam-se. Distribuem-se de acordo com disponibilidade, preferência ou sentido prático. E isto devia acontecer em qualquer casa, seja ela composta por casais heterossexuais, gays, lésbicas, um viúvo, uma divorciada, um solteiro com dois cães ou uma solteira com um gato e três periquitos.
O problema destas crenças que ainda persistem não está apenas na sua falta de lógica. Está no impacto real que têm. Ao atribuir, ainda que de forma implícita, determinadas responsabilidades a um género, limita-se a liberdade individual. Condicionam-se escolhas, criam-se pressões invisíveis e perpetuam-se desigualdades que depois se refletem noutras áreas, na vida profissional, na gestão do tempo, no equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
E talvez seja esse o ponto mais incómodo, a desigualdade moderna raramente é imposta de forma clara. É sugerida, esperada, assumida. Não precisa de ser dita, basta ser interiorizada. E quando assim é, torna-se mais difícil de identificar, mais difícil de contestar e, sobretudo, mais difícil de eliminar.
Mais de meio século depois do 25 de Abril, continuamos a celebrar a liberdade, mas a liberdade, tal como a igualdade, exige vigilância e, acima de tudo, a capacidade de desconstruir aquilo que durante muito tempo foi aceite sem discussão. Enquanto houver papéis atribuídos à partida, expectativas baseadas no género e a ideia de que a mulher é que deve tomar conta da casa, a igualdade continuará a ser uma promessa incompleta. E, aos olhos dos iluminados que defendem que o lugar da mulher é na cozinha, fêmeas como eu serão sempre uma falhanço… Não sabem fazer arroz que não pareça massa para reboco, não aspiram diariamente e esquecem-se de pôr a carne ou o peixe a descongelar para preparar o repasto do ser que traz o dinheiro para casa, como se elas não trouxessem também.
Não basta celebrar Abril. É preciso defender a liberdade e a igualdade da erosão. Porque a desigualdade raramente se impõe de forma explícita. Instala-se, isso sim, onde a atenção falha. E é precisamente por isso que a vigilância não é nem pode ser um gesto ocasional, mas uma responsabilidade permanente.
