Interior não se salva sem regadio
Opinião

Interior não se salva sem regadio

  • 2 de Junho de 2026, 09:00

Durante décadas, Trás-os-Montes habituou-se a ouvir promessas de desenvolvimento. Falou-se de estradas, de incentivos, de programas de fixação de população e de combate à desertificação. Mas continua por resolver uma questão fundamental. Sem água não há agricultura moderna, sem agricultura competitiva não há riqueza e sem riqueza não há pessoas para ficar.

A construção da Barragem da Alamela, em Santulhão, no concelho de Vimioso, representa muito mais do que uma obra de milhões de euros. Representa uma mudança de paradigma. É um sinal de que a região pode começar a deixar de depender exclusivamente dos caprichos do clima para produzir, investir e crescer.

O testemunho dos agricultores é esclarecedor. Atualmente, a esmagadora maioria das explorações agrícolas da região continua dependente do regime de sequeiro. Todos os anos, o sucesso de uma campanha agrícola fica entregue à quantidade de chuva que cai na primavera ou à intensidade das temperaturas durante o verão. Não é possível construir uma economia agrícola forte assente na incerteza.

Enquanto outras regiões do país beneficiaram, ao longo das últimas décadas, de grandes investimentos em aproveitamentos hidroagrícolas, Trás-os-Montes continua a olhar para o céu à espera de chuva. O resultado está à vista, menor produtividade, culturas menos rentáveis, dificuldade em atrair jovens agricultores e menor capacidade para criar valor acrescentado.

O caso da Oliveira Santulhana é paradigmático. Trata-se de uma variedade autóctone de enorme qualidade, que já conquistou mercados nacionais e internacionais e que continua a expandir-se pelo território. No entanto, os produtores enfrentam dificuldades crescentes. Dependem das condições meteorológicas, suportam elevados custos de mão de obra e veem ameaçada a rentabilidade de explorações tradicionais. O regadio não resolverá todos os problemas, mas poderá aumentar a produtividade, garantir maior estabilidade nas colheitas e permitir novas oportunidades de diversificação agrícola.

A verdade é simples. Trás-os-Montes não precisa apenas de preservar tradições. Precisa de criar condições para produzir mais, transformar mais e exportar mais. Precisa de gerar rendimento para os agricultores e emprego para os mais jovens. Precisa de tornar a agricultura um setor economicamente atrativo e não apenas uma atividade de resistência.

A Barragem da Alamela pode servir 100 hectares. É um começo. Mas a região necessita de uma estratégia muito mais ambiciosa. Necessita de novas barragens, de mais redes de rega, de maior capacidade de armazenamento de água e de uma visão integrada para o aproveitamento dos recursos hídricos.

Todos os anos ouvimos falar da desertificação humana do interior. Mas raramente se fala da desertificação económica que a precede. As pessoas não abandonam as aldeias apenas porque faltam serviços. Abandonam-nas porque faltam oportunidades. E as oportunidades surgem quando existe atividade económica capaz de gerar rendimento.

Se queremos verdadeiramente fixar população, criar riqueza e assegurar o futuro de Trás-os-Montes, o regadio não pode continuar a ser visto como uma obra secundária. Deve ser encarado como uma prioridade estratégica nacional.
Porque a região já demonstrou que sabe produzir. O que falta é dar-lhe os meios para produzir a sério.

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Carina Alves