Valorizemos o que é NOSSO
Nesta sociedade moderna e globalizada, a facilidade de importar produtos de origens distantes, embalados por campanhas publicitárias agressivas e preços de ocasião, asfixia lentamente as economias locais. Tornou-se uma prova de resistência afirmar e manter vivos os produtos da nossa terra, da nossa região, da nossa aldeia.
A dificuldade agrava-se quando pomos lado a lado o custo de produção, o preço final, a qualidade real e até a simples apresentação na prateleira. Na grande distribuição, o que brilha mais nem sempre é o melhor. Nesta teia de consumo desenfreado, parece valer tudo para atingir o lucro fácil e imediato. A especulação manda. E muitas vezes nem os riscos para a saúde pública são ponderados. Conservantes a mais, origem a menos, sabor nenhum.
Não surpreende, por isso, que muitos produtos tradicionais estejam em vias de extinção. Alguns já se extinguiram sem que déssemos conta. Levámos da mesa o que nos ligava à terra e aos avós. Os hábitos alimentares modernos também não ajudam: trocámos o genuíno pelo prático, o nutritivo pelo processado, o tempo de cozer pelo micro-ondas. Mas deviam ajudar. A mudança começa no carrinho de compras.
Promover de forma sustentável os produtos da terra é tarefa dura, ingrata até. Mesmo quando lhes reconhecemos qualidade gastronómica singular, esbarramos na logística, na burocracia, na escala. Ora, a alimentação é parte essencial da nossa economia, da nossa cultura e da nossa história. Não é acessório. É identidade. Valorizar o que é nosso é valorizar o que nos identifica e pode projetar-nos noutras zonas do país e do mundo. Um queijo, um vinho, um azeite bem contados valem mais que mil folhetos de turismo.
É verdade que trabalhamos numa escala pequena. As nossas leiras não são latifúndios, os nossos rebanhos não enchem autoestradas. Mas é precisamente aí que ganhamos. Em qualidade e genuinidade, a nossa agricultura “dá cartas” à produção industrial. Há produtos que nunca poderão ser comparados, porque nascem de um clima único, de um solo pobre que dá riqueza, e de um saber-fazer que passou de mão em mão. Isso não se replica em estufa, não se programa em linha de montagem, não se apressa com adubo.
Quem me conhece sabe bem o que penso e o “fundamentalismo” com que defendo os produtos regionais. Não é teimosia, é convicção. Reconheço que há regras europeias, nacionais e municipais que constrangem a produção, a comercialização e até o uso tradicional dos nossos alimentos. Matar o porco em casa, curar o salpicão no fumeiro de lareira, vender a couve da horta na praça, tudo ficou mais difícil. Tenho consciência de que temos um longo caminho na preservação da nossa alimentação regional. Mas acredito que podemos melhorar, e muito, a imagem do que produzimos e consumimos.
O primeiro passo é simples e está na mão de cada um: consumir o que os nossos agricultores, pastores e artesãos produzem. Dar-lhe valor próprio, pagar o preço justo, sem regatear o trabalho de meses. Alimentar a economia local é alimentar o vizinho, o primo, o amigo que ainda teima em ficar na terra.
Se temos azeite de qualidade mundial, batata de sabor antigo, vinho que conta histórias, castanha que alimenta e aquece, carne mirandesa criada no lameiro, fumeiro de porco bísaro e tantas outras espécies autóctones, por que razão havemos de preteri-los por híbridos vulgarizados, pela tal “comida de plástico” que enche os carrinhos e esvazia a saúde? Não há razão. Só hábito. E hábitos mudam-se à mesa, com garfo e faca.
Quem não gosta de um butelo com casulas no inverno, de uma posta à transmontana, de um salpicão ou presunto cortado à mão, de um bom vinho tinto que mancha a toalha, ou de untar grão com bacalhau no azeite das nossas oliveiras seculares? Quem não se lembra do cheiro da bola quente de azeite, ou do mel das nossas abelhas? Se a preferência é clara, se a boca ainda tem memória, então façamos a nossa parte.
Consumir, divulgar e ajudar a promover os nossos produtos não é só tarefa do Estado nem da Câmara. É nossa. Levar um amigo a provar, oferecer um cabaz no Natal, pedir o prato da terra no restaurante, onde não falte o o nosso “ouro da terra” ou o singular néctar dos deuses, perguntar a origem dos produtos a quem nos atende ou ao vendedor que nos entende. Pequenos gestos que seguram uma economia inteira.
Valorizar o que é nosso não é saudosismo bacoco nem bairrismo cego. É futuro. É garantir que os nossos filhos ainda conhecem o sabor de uma maçã, que não vem do outro lado do mundo. É manter aldeias vivas, paisagens cuidadas e pessoas com orgulho no que fazem.
Porque no fim, a terra aguenta tudo. Menos o esquecimento. E o esquecimento, esse sim, parte sem remédio.

