As cimeiras
Depois de tantas ameaças e propostas para acabar com as guerras que assolam a Europa e o Médio Oriente, eis que os grandes líderes se movimentam, um pouco apressadamente, na realização de cimeiras, tentando daí retirar proveitos e caminhar igualmente para soluções de paz. Muito difícil de atingir soluções viáveis, pelo que já se sabe como resultado destas cimeiras.
Trump anunciou com pompa e circunstância, a sua ida à China com o objetivo de conseguir apoios para a sua luta em prol da paz. O resultado parece não ter sido o esperado. No entanto, alguns acordos económicos foram assinados e numa coisa estão de acordo: a abertura do Estreito de Ormuz e a paz na guerra do Médio Oriente. A questão nuclear também foi abordada e no sentido de o Irão não continuar o enriquecimento de Urânio para fins militares. Mas não podemos esquecer que o Irão é um aliado da China e a esta interessa todo o petróleo que de lá possa chegar, já que é o maior fornecedor de Xi Jinping. Interessa muito à China que a questão do Estreito de Ormuz seja rapidamente resolvida, mas isto traz outras condicionantes que não interessam aos EUA.
Deste modo, Trump não trouxe na bagagem muita coisa de interesse que seja plausível e convença os americanos das suas boas intenções. A dívida externa dos EUA é enorme e foi agravada pela política de Trump. Os trunfos para ganhar as próximas eleições são escassos, daí esta correria louca em cimeiras para conseguir aliados e apoios que cada vez são menos. Mas a economia russa não está melhor. Ela está a enfraquecer e o orçamento militar desceu muito, sinal do empobrecimento económico russo, que a guerra com a Ucrânia tem ajudado a desgastar.
Mas não foi só Trump a procurar Xi. Também Putin foi à procura de alargar os apoios chineses e o restabelecimento de antigos acordos. Com o enfraquecimento da economia russa, o apoio em alguns setores económicos é de enorme interesse para a Rússia. Por outro lado, Putin quer mostrar ao mundo que continua a contar com o apoio político e económico da China, até porque também esta mantém linhas de escoamento económico para a Rússia. Mas onde ficam as guerras da Ucrânia e do Médio Oriente? Claro que foram abordadas um pouco secretamente, já que no que se refere à guerra da Ucrânia pouco se sabe do que foi dito, além de que o Presidente chinês não se quer intrometer, mas quer o fim do conflito. No entanto, é sabido que a China preparou mais de quatrocentos militares para poderem intercetar os drones ucranianos. Tudo com boas intenções!
Contudo, Putin não trouxe grande coisa da China. A China é cada vez mais uma potência mundial, embora com falhas e sem comprometimentos. Com o Mundo fragmentado, as aspirações chinesas não foram muito notáveis nesta cimeira. Reativar acordos anteriores e um apoio muito subtil para além do aparente bom entendimento entre os dois líderes, pouco daí resulta como substantivo. Ficou por resolver, por exemplo, a construção do gasoduto a unir os dois países pela Sibéria. Se isso foi abordado, não sabemos e não foi ventilado.
Destas cimeiras o que a comunicação social se fartou de referir foi o modo como os dois líderes foram recebidos na China. Até o pormenor das bandeirinhas a acenar para os Presidentes e as paradas militares, foram objeto de análise para identificar possíveis diferenças e descriminação nas duas receções. Enfim!
As cimeiras foram a procura de apoios substanciais para tentar resolver os problemas que tanto Trump como Putin criaram. Se há guerra na Ucrânia foi Putin que a iniciou. Se há guerra no Médio Oriente foi Trump que a provocou a pedido de Netanyahu. Agora ambos procuram a China para os ajudar a resolver um problema que eles criaram e não querem desfazer.
A Ucrânia está a ripostar às investidas russas com ataques sistemáticos e sincronizados a estruturas importantes da Rússia e até muito próximas de Moscovo. Atacar a Crimeia é outro objetivo de Kiev e está a conseguir isolar a península. A guerra não está a correr nada bem à Rússia. Daí que a procura de apoios e resoluções destes conflitos, sejam importantes para a Rússia. Mas os EUA também estão a enfraquecer economicamente. Apesar de serem a potência militar mais forte do mundo, vale o terem mais de setecentas bases militares espalhadas por vários países em todos os continentes, o que lhes permite assegurarem uma intervenção rápida a qualquer altura. É o exemplo de Israel. Mas Trump não está a gostar do caminho que a guerra está a levar. Daí alertar Netanyahu para esperar e parar os ataques ao Irão. Há coisas mais importantes a resolver. O líder israelita não gostou, mas ele está a lutar contra o Hezbollah, contra o Irão e contra a possibilidade de perder as eleições e ir a tribunal, ser condenado e preso. E neste aspeto, não há cimeira que lhe valha.
No fundo, nestas cimeiras, o ponto de apoio aprece ter sido, sem dúvida, a China. O que vai resultar em concreto, ainda não sabemos, mas parece não ser tão depressa que estas guerras irão acabar e a gasolina baixar, endireitando a economia mundial.

