Região

Nas ruas da amargura

Nas ruas da amargura
Imagem do avatar
  • 8 de Julho de 2008, 10:03

Durante quase seis anos, Portugal viveu um clima de animação, esperança e exaltação como nunca tínhamos visto, graças aos esforços do seleccionador nacional de futebol que soube como ninguém entrar na casa dos portugueses e elevar-lhe o seu amor pátrio. Embora muito criticado no início, cedo mudaram de opinião os mais cépticos, acabando por lhe render a devida homenagem como técnico que efectivamente era.
Quando começou a construir a selecção nacional, já o país vivia em descrédito intrínseco no que respeita ao futebol, obviamente. Vivíamos de recordações e saudade, a eterna saudade dos românticos! Saudosistas como sempre, faltava alguma coisa que mudasse pelo em parte, essa forma de estar e nos desse um sentimento de vitória ou pelo menos da esperança de o conseguir. Scolari deu ao povo português o que nunca ninguém tinha dado. Apesar de criticado e mantendo o seu estilo característico de intransigência, rodeado de alguma teimosia, conseguiu alegrar muitos portugueses.
O tempo, como sempre, viria provar a sua razão. Sementes de esperança em campo fértil, lograram ter resultados esplêndidos. Portugal inteiro vibrou muito antes do campeonato europeu. A sua ideia, o seu pedido amigo, exaltou os ânimos, fez bater mais forte o coração dos portugueses e todos responderam à chamada. Em todas as janelas, serpenteavam ao vento bandeiras portuguesas. Em todos os automóveis, havia bandeiras. Vendiam-se bandeiras por todo o lado e até a China fabricou bandeiras quase idênticas à portuguesa. Tudo se vendeu e comprou para mostrar a chama e o vigor da alma lusa. Foi bonito!
Mas se Portugal não venceu nem o europeu nem o mundial com Scolari, pelo menos estivemos mesmo pertinho. E este europeu de 2008, rodeados da mesma esperança de vitória, não lográmos ir tão longe. Alguma falta de sorte, infelicidade, juízos apressados sobre lances duvidosos, ou não, foram ingredientes de pratos não desejados. E se nós éramos, à partida, uma selecção apontada como favorita, perdemos nos quartos de final todas as veleidades. Perante uma Alemanha, sempre forte, soçobrámos, mas de pé. Sem perder a dignidade.
E como há sempre alguém para substituir quem fica, a selecção que até nem tinha grandes esperanças, acabou por ganhar à Alemanha, mostrando um futebol com garra, onde a vontade de vencer era mais forte do que tudo o resto. A Espanha venceu e convenceu.
E nós? Dizia alguém no outro dia, que estávamos na rua da amargura. Porquê? Porque não ganhámos? Porque Scolari foi embora? Ou será porque já não temos referências dignas que nos incentivem a continuar o que alguém começou?
É verdade que o Fado já não tem a Amália e o Futebol já não tem o Eusébio, mas se esses já passaram, também é verdade que outros estão a passar e serão referências dignas, como Rui Costa, Figo e tantos outros. E os que temos? Que tal um Cristiano Ronaldo? Um Moutinho, um Nani ou um Quaresma? Selecção, nós temos, certamente.
O que nos falta, parece ser a existência de alguém que consiga exaltar os ânimos dos portugueses, aglutiná-los a esta selecção jovem, mas credível e, todos juntos, partirmos para a vitória no próximo campeonato com a mesma esperança que até há pouco ainda nos fazia mover em direcção a uma vitória que seria justa, mas que não conseguimos atingir. Paciência.
Portugal tem os problemas inerentes a uma conjuntura internacional e tem de viver com eles e tentar torneá-los na esperança de melhores dias. Nós não estamos na rua da amargura, só porque o Fado é diferente e o Futebol já não é o que foi. Nós temos outro Fado e temos outro futebol. Não podemos continuar a viver somente de recordações e saudosismo. É urgente que venha alguém lembrar-nos que há presente e futuro para além do passado mais risonho que se possa recordar e novamente fazer-nos acreditar que somos capazes de vencer o próximo campeonato e ultrapassar os problemas que por aí andam.
A amargura que sentimos não anda pelas ruas, mas sim no nosso íntimo. Instalou-se temporariamente, mas sairá brevemente. Tem de sair porque o amanhã está aí e ele tem de ser sinónimo de vitória.

Proponha um artigo de opinião:
info@pressnordeste.pt
Abrir
Imagem do avatar
Written By
Redação