Região

Quatro Motetos em Vinhais

Quatro Motetos em Vinhais
Imagem do avatar
  • 26 de Agosto de 2008, 09:22

A aparição do tempo nos seus efeitos verifica-se nos rostos tisnados e nas grenhas encanecidas das pessoas, esquecendo-se da claridade jubilosa da juventude, porque para nosso sobressalto não se vislumbram jovens. E o tambor do impacto da falta de jovens ecoa nos meus ouvidos porque a população é o melhor e mais valioso activo das regiões, terras e localidades. Por mais bailes, jantares e excursões que se realizem, uma coisa é certa – Vinhais – conjuntamente com Vimioso e Murça está no topo da classificação dos concelhos mais envelhecidos do País. Que fazer? Existe um importante conflito interno entre o desejável e o possível. Mas explicar a génese do conflito e ganharem-se ideias para se tentar resolver o problema obriga a estudo, a reflectir e a uma grande franqueza e honestidade na exposição dos postulados isentas de pruridos de nenhuma espécie por pessoas qualificadas, independentes, atreitas e receptivas à discussão, sem ficarem impressionadas ou intimidadas pela posição política ou social dos intervenientes. Duvido que se tal reflexão seja feita.
Segundo moteto: A obrigação e a devoção levam-me ao Lar da Misericórdia visitar uma familiar chegada. Tal como nas vezes anteriores sou bem recebido e naquele lugar de fronteiras anuladas podemos observar as ruínas provocadas pelo devir dos anos obrigam-me a pensar na Yourcenar; vejo a minha tia-madrinha a ser assistida por duas fisioterapeutas que tentam restituir-lhe algum aconchego corporal. A densidade antiga esvaiu-se pelo passar dos anos, a solidão e os desgostos após a morte do homem da sua vida. As técnicas são afáveis – a visita foi de surpresa – pouco podem fazer, os olhos vivos da doente contrariam o corpo de jacência, inerte. Penso nos beijos que me deu em tamanino, ouço-lho um murmúrio naquele gravitar de vazio apenas agitado pelo apego e esforço das terapeutas. E, assim, amar, resulta em sofrimento. Não a esqueço, mas não gostei de a ver. Mas gostei de verificar o asseio do Lar, e o profissionalismo das pessoas que lá trabalham. Muito bem.
Terceiro moteto: Vou à Câmara a fim de tratar da transferência da cobrança da água e luz referente à casa de Lagarelhos. Uma funcionária – perdão, uma simpática e eficiente trabalhadora elucida-me sobre os trâmites a desenvolver, vou ao Banco, volto à Câmara, num repente o caso da água ficou resolvido. O atendimento na Câmara deixa-me surpreso. É verdade! Aquela senhora contradiz a imagem do funcionário – burocrata, mal-encarado, mais interessado em atrapalhar do que em ajudar, contente por nos ter obrigado a gastar muito tempo e às vezes dinheiro – espero e desejo que não seja a excepção. Lastimo não lhe ter perguntado pelo nome para o declarar neste escrito. Também no agente da EDP a senhora primou pela simpatia e divertiu-se ao lhe explicar a titularidade do contador. Fico feliz por registar estas evidências que podem parecer simples e prosaicas, mas que o cidadão agradece devido a não estar habituado a tanto.
Quarto moteto: Percorro a rua até ao restaurante Cidadela. As más práticas em matéria de estacionamento colocam salientes dificuldades aos peões, dois agentes de autoridade charlam alegremente com um cavalheiro não parecendo incomodados com os evidentes atropelos que os seus olhos, obrigatoriamente, contemplam. Não há bela sem senão. No restaurante o Sr. Armindo queixa-se devido à falta de fregueses, dá exemplos e lastima o facto de os turistas, passantes ou viajantes não ficarem, nem sequer pararem em Vinhais. Pois é!

PS. Passei de raspão pelo Parque Biológico. Não deu para formular opinião.

Proponha um artigo de opinião:
info@pressnordeste.pt
Abrir
Imagem do avatar
Written By
Redação