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“Governo tem que substituir as automotoras”

“Governo tem que substituir as automotoras”
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  • 2 de Setembro de 2008, 09:50

Jornal Nordeste (JN) – Ficou surpreendido com o relatório preliminar às causas do acidente do passado dia 22 de Agosto?
José Silvano (JS) – É surpreendente, porque o relatório preliminar é um conjunto de opiniões da CP, da REFER, da EMEF e do Metro de Mirandela sobre o que aconteceu.
São entidades que têm técnicos capazes e idóneos, mas que são, actualmente, as entidades que estão envolvidas no funcionamento da linha do Tua. A CP, através da segurança da viagem até ao Tua, a REFER com a manutenção e consolidação da linha, a EMEF através da manutenção do material circulante e o Metro na organização das viagens.
Neste relatório, feito em 72 horas, estas entidades não podiam ir muito mais além, a não ser que dissessem mal delas próprias. Não existe relatório nenhum, mas uma perspectiva destas entidades sobre aquilo que aconteceu.

JN – O Governo deu um prazo de 30 dias para ter nas mãos um inquérito conclusivo. Acredita que o prazo vai ser cumprido?
JS – O senhor ministro das Obras Públicas quer um inquérito conclusivo e nós também queremos. Não sei é se num mês se consegue fazer um relatório conclusivo ou se as entidades envolvidas terão tempo de estudar a fundo os problemas da linha do Tua, mas isso já é outra questão… O senhor ministro disse: recorra-se a todo o pessoal especializado, incluindo a Faculdade de Engenharia do Porto. Nós também apoiamos essa medida, inclusive a intervenção de técnicos fora do universo da CP porque também é necessária uma certa independência em todo o processo.

JN – Acha que também é preciso avaliar a adequação do material circulante às características da linha do Tua?
JS – O ministro das Obras Públicas também quer que se faça esse trabalho, e bem. Não quero com isto dizer que o material é inadequado, mas estude-se também a adequação do material à linha.
O material circulante pode ser uma das causas, não do acidente em si, mas da gravidade do acidente. Penso que a automotora não é a causa do acidente, porque é mais leve e não exige tanta manutenção na linha, mas se houver um acidente, há mais feridos graves numa automotora destas, do que se fosse nas antigas máquinas napolitanas, que tinham 3-4 vagões, em que nem todos cairiam e em que todas as pessoas iam sentadas. As consequências do acidente seriam menos graves e, se calhar, nem haveria vítimas mortais. Esta é que é a grande questão.

“Não sei se num mês se consegue fazer um relatório conclusivo ou se as entidades envolvidas terão tempo de estudar a fundo os problemas da linha do Tua”

JN – Refere-se ao facto de nas automotoras viajarem muitos passageiros de pé?
JS – Sim. A automotora leva 27 pessoas sentadas e 27 de pé. Havendo um acidente como o do dia 22 de Agosto, em que viajavam 50 pessoas, as pessoas que vão de pé caem em cima das que vão sentadas e as consequências são mais graves, porque pode haver esmagamentos.
É neste sentido, e só neste, que o Governo deve equacionar a hipótese de substituir as automotoras do Metro de Mirandela, que foram concebidas para um percurso urbano. Só estão a chegar ao Tua porque senão a linha já tinha encerrado, já que a CP retirou de lá todas as carruagens.
Se o Governo quer uma linha do Tua rentável e atractiva a nível turístico tem que substituir o material circulante, colocando carruagens mais pesadas e adequadas a uma linha de montanha lindíssima como a do Tua.

JN – Tendo em conta que viajavam cerca de 50 passageiros no dia do acidente, não haveria necessidade de acoplar duas automotoras?
JS – Não era possível porque o regulamento da CP só permite a acoplagem de outra automotora se o número de passageiros ultrapassar os 54. Isto não implica que noutro tipo de carruagens as pessoas não fossem sentadas.
Nas automotoras do Metro de Mirandela só vão de pé porque, repito, são veículos para percurso urbano. Até ao Tua não é um circuito urbano. Tem mais de uma hora de duração e não existe a comodidade que os turistas necessitam, nem mesmo casas de banho…

JN – É comum as pessoas viajarem de pé na linha do Tua?
JS – É, principalmente nos meses de Verão, em que há muita procura. Só neste mês circularam na linha mais de 1.800 pessoas e a lotação da automotora ia sempre esgotada.

JN – A automotora do acidente do dia 22 de Agosto é a mesma que teve o acidente em a 6 de Junho passado?
JS – É. O Metro de Mirandela tem 4 automotoras, já houve 4 acidentes, de modo que quase todas elas já tiveram um acidente. Esta automotora tinha feito a revisão nas oficinas da EMEF de Contumil há 15 dias. Teoricamente, não tinha qualquer problema mecânico, aliás como já ficou provado no relatório preliminar.

JN – Estranha a ocorrência destes acidentes todos no espaço de 1 ano e meio, principalmente depois de se começar a falar na barragem do Tua?
JS – Eu tenho que dizer que é estranho, pelo menos. Não posso dizer, nem acredito, que seja sabotagem ou que seja qualquer interesse económico a pôr em causa a vida das pessoas.
Isso já era terrorismo, por muito interesses que haja na linha do Tua… Agora isso é uma questão que os transmontanos têm todo o direito de levantar, porque se cria a suspeição de que alguma coisa acontece fora do previsto.
E como é que isso surge? Bom, deu-se o primeiro acidente com 3 mortos e concluiu-se que foi a queda de pedras, mas ficaram dúvidas no espírito das pessoas. Depois, as entidades máximas em segurança ferroviária mandam reabrir a linha e, passado um mês, há um novo acidente com o descarrilamento duma dresin.
Passado um mês há outro descarrilamento duma automotora, mas sem ferido graves, e agora este com um morto. E não foi num ano e meio que aconteceram 4 acidentes, foi em menos de um ano, porque a linha esteve fechada 6 meses após o primeiro acidente.

“Se o Governo quer uma linha do Tua rentável e atractiva a nível turístico tem que substituir o material circulante, colocando carruagens mais pesadas”

JN – O relatório do 3ª acidente ainda não é conhecido…
JS – Pois, como ninguém explica às pessoas o que aconteceu, ninguém lhes diz o que falhou, as pessoas interrogam-se. Às vezes até parece que estamos aqui perante um Triângulo das Bermudas, em que os barcos desapareciam no mar e ninguém sabia porquê. Agora parece que as automotoras entram na parte final da linha do Tua, nos 12 quilómetros entre a Brunheda e o Tua, e há um magnetismo nas fragas que atira com as viaturas para o rio ou para terra! A única forma que temos de garantir às pessoas que não há ali nenhum acto de sabotagem ou terrorismo, é divulgar publicamente as causas dos acidentes.
Não é admissível nem normal chegarmos a esta altura e ainda não conhecermos as conclusões do relatório do terceiro acidente.

JN – Acredita que dentro de 30 dias o relatório do 4º acidente vai mesmo estar concluído?
JN – Tenho que acreditar. Espero que tudo isto não seja um subterfúgio para durante um mês arranjar um pretexto e elaborar um estudo que leve ao encerramento da linha. Quero é pensar que o relatório do acidente levará o Governo a fazer investimentos na linha capazes torná-la segura, apostando na manutenção e em carruagens adequadas à actividade turística e ao transporte regular de passageiros.

JN – Mas a REFER, em 2007 e 2008, já investiu na linha mais de 2 milhões de euros em manutenção…
JS – Sim, a CP e a REFER têm feito esforços em obras de conservação, mas falta-me saber se esse investimento é suficiente para responder àquilo que é a consolidação duma linha que tem 120 anos. Falta-me saber se resolvem a segurança só com esta manutenção.

“Falta-me saber se o investimento da REFER e CP é suficiente para responder àquilo que é a consolidação duma linha que tem 120 anos”

JN – Tem defendido uma investigação a uma vala onde foi enterrado um cabo de fibra óptica. Porquê?
JS – Não estou a apontar causas, porque não sei nem sou técnico. O que digo é que, já que não se encontram causas, então que se estudem todas, tudo o que naquela linha possa dar origem a um acidente. Foi instalado um cabo de fibra óptica entre o Tua e Mirandela e para tal foi aberta uma vala ao longo da linha. Investigue-se, pelo sim pelo não.
A EDP fez prospecções e usou explosivos para esse efeito. Investigue-se e apresentem-se conclusões. Não se pode dizer que a automotora estava boa, a linha estava óptima e o maquinista ia na velocidade certa, mas o acidente apareceu. Isto é que as pessoas não aceitam.

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