Carta Anónima:O Expediente dos Cobardes
Não estando minimamente habilitado para fazer quaisquer considerações acerca dos insondáveis desígnios da alma humana, contudo, como vulgar cidadão, consigo fazer uma leitura, ainda que não necessariamente coincidente com a dos entendidos nestas questões, muito próxima daquilo que são as motivações de quem se presta e disponibiliza a comportamentos de uma baixeza inqualificável.
Coincidência ou não, é essencialmente nas instituições públicas que as cartas anónimas circulam. E, sem lhe atribuir qualquer ordem de enumeração baseada no grau de incidência, ficando-me pelo descomprometido método aleatório, direi, correndo, eventualmente, o risco de omitir alguma, que a Segurança Social, as Finanças, em todos os seus serviços, a Câmara Municipal, o Hospital e quase todos os estabelecimentos de ensino têm sido as instituições destinatárias – com alvos sempre personalizados – das referidas cartas.
Considero, pois, numa classificação subjectiva da maldade humana, a carta anónima um dos mais indecentes e escabrosos comportamentos. Porque a pessoa visada, a vítima da maledicência, nos casos em que as missivas passam de mão em mão, ainda que esteja de consciência tranquila, quer pessoal, quer profissionalmente, é confrontada, por um lado, com a suspeição que sobre si recai, e, por outro, com juízos se valor precipitados, feitos por quem a rodeia. Assim, estas almas indigentes, ao ocultarem a identidade, ao colocarem a máscara, estão a impedir que o alvo da sua frustração não possa ter direito ao Contraditório, para, assim, poder repor a verdade e limpar o nome.
Em minha opinião, até se consegue entender que antes da Revolução dos Cravos, porque até ali não havia liberdade de expressão, a carta anónima fosse um recurso socialmente aceitável. No contexto actual, em que as rádios e os jornais locais se abrem e estão ao dispor dos cidadãos anónimos, permitindo que todos tenham o direito de se defender, emitir opiniões, criticar e intervir publicamente, no exercício da cidadania, na tentativa da busca da verdade e da justiça, esconder a cara, por detrás do anonimato, atirar pedras e fugir é um comportamento indigno.
Uma das grandes virtudes da liberdade é precisamente a certeza de que ninguém vai preso por denunciar pessoas ou instituições. Podemos, na pior das hipóteses, mesmo respeitando os mais elementares princípios da Democracia, ter alguns dissabores, como “ganhar amigos”, olhares transviados e fulminantes e outras consequências de pouca monta.
Mesmo assim, apontar o dedo, mas assumida, num acto de coragem, a ousadia do feito, poupa-nos ao desconforto do peso na consciência; o que permite, a quem, ao levantar da cama, se barbeia ou maquilha, uma certa leveza de espírito, por não ter vergonha da cara reflectida no espelho.
Na verdade, o acto de denunciar, tirando os casos em que os autores das cartas anónimas agem por inveja, tentam pressionar decisões dos servidores do Estado, e sempre com intenção de espezinhar o próximo – digamos que, aqui, o malfazejo é, por norma, oficial do mesmo ofício do ultrajado, o que nos remete para a velha máxima latina “ homo hominis lupus” –, é saudável em democracia, desde que os propósitos desse gesto sejam fundamentados e sérios. Denunciar, por exemplo, que nesta ou naquela instituição se esbanjam dinheiros públicos; que no organismo tal está instituída a política do compadrio; que fulano x está no lugar que está por causa do “senhor Cunha”, em detrimento de outros concorrentes de reconhecida competência, etc., mais do que um dever, pode ser considerada uma atitude destemida e virtuosa, se o referido acto não for exercido cobardemente atrás da máscara.

