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O rapaz de Genísio

O rapaz de Genísio
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  • 23 de Setembro de 2008, 09:34

Enquanto esperava apreciei a montra onde se espreguiçavam peixes a exalarem frescura. Enquanto descascava os mimosos camarões a iniciarem o festim gastronómico a modos de hors d’oeuvre, o homem de olhar penetrante, sorriso largo por debaixo do bigode principiou a falar na exaltação das vitualhas ao nosso alcance – amesendávamos cinco autênticos amigos da boa mesa – pareceu-me no fundo da sua voz descortinar sons desconstruídos a lembrar o terrunho nordestino. Claro, pois, sou sim senhor – transmontano de Genísio – conhece? Logo a funçanata animou e se transformou em conversa de vagares na evocação apesar da numerosa clientela a o obrigar a contínuas e rápida idas e voltas. Sabe até aos dezasseis anos não tinha folgas na condução das vacas, porque aquilo não era vida a família enviou-o para Peniche colocando-o debaixo da protecção de uma familiar e por isso começou a trabalhar na famosa casa de delicadezas gastronómicas, mariscos e charcutaria – Pastelaria Suiça. Conheceu? Conheci muito bem, frequentei-a, pois devido aos amores estancio no Baleal desde os finais dos anos setenta, mais precisamente setenta e oito, respondi. A refeição decorreu no meio da maior alacridade e ao findar o rapaz de Genísio ofereceu-me um puro de grande qualidade. Enquanto acendia o charuto prometi mais visitas, mais conversas e uma ida ao seu restaurante Estelas, sito no local da Pastelaria entretanto encerrada devido ao falecimento do proprietário, seu patrão o qual nunca deixou de visitar quando caiu à cama devido a mortal maleita. Um exemplo de gratidão. No decorrer dos anos tenho refeiçoado regularmente no Estelas, acompanhando as andanças do rapaz de Genísio na apresentação dos comeres penicheiros e da Estremadura por feiras e festivais de gastronomia, discutido opções e receitas, além de saborear exaltantes comeres preparados debaixo da sua direcção. Este rapaz de seu nome – Diamantino Neto, tem cinquenta e cinco anos de idade e é um dos melhores exemplos da tenacidade, espírito de sacrifício e iniciativa de milhares e milhares de transmontanos obrigados a abandonarem as serranias altas, ásperas e agrestes devido à carestia reinante e poucas esperanças de melhoria. Hoje, Diamantino é altamente considerado no círculo do turismo gastronómico, no entanto, continua sem enfeites ou postiços pretensiosismos, continua generoso como nos tempos de dificuldades, não deixando escapar uma oportunidade de enaltecer a sua terra e mostra-se sempre disposto a acolher ou a participar em jornadas de apresentação e promoção dos produtos oriundos da sua região e/ou do Distrito, o que não tem acontecido vá-se lá saber porquê, ou então por que ele não é dado à louvaminha e não anda a exibir-se a torto e a direito. Um amigo meu, disse-me há dias, que se comia muito bem na Nau dos Corvos, restaurante sobranceiro ao mar no Cabo Carvoeiro. Devido a antigas más experiências revelei incredulidade, logo desvanecida quando me disse estar agora o restaurante debaixo da tutela de Diamantino e do seu filho Diogo. Nessa noite fui lá jantar. Além do alto merecimento dos comeres ali confeccionados por espevitado chefe com sangue a guelra, tive a oportunidade de ouvir e analisar o projecto de restauração que pai e filho estão a iniciar. O rapaz de Genísio podia estar confinado ao seu bom restaurante de Peniche, podia deixar-se de trabalheiras, mas não – alegre e convictamente – a modos de menino a desfrutar de jogo da novidade, lança-se em mais um desígnio custoso, a obrigar a novos e continuados esforços, mas a revelar quão forte é o seu querer e sua fibra de empreendedor. Ou não fosse de Genísio, como costuma afirmar!

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