Semana da Cultura Mirandesa arranca com a Festa dos Pendões e celebra os 481 anos da elevação de Miranda do Douro a cidade
Os pendões voltaram a percorrer as ruas de Miranda do Douro e deram o pontapé de saída para a Semana da Cultura Mirandesa, iniciativa que serve para assinalar os 481 anos da elevação de Miranda do Douro a cidade.
Os pendões são enormes estandartes de tecido, com cores e símbolos próprios de cada localidade, cuja origem poderá remontar aos tempos da Reconquista Cristã. Durante séculos identificaram comunidades e acompanharam cerimónias religiosas, mas muitos acabaram esquecidos em igrejas, capelas ou arrecadações. Entre quem continua a manter viva esta tradição está João Pedro Luís, natural de Aldeia Nova, que transportou o pendão da sua terra. “Este foi o único pendão de toda a vida saiu. Este é que deu a vida a todos os outros pendões. Nunca esteve encerrado, quer dizer, está durante o ano, mas sempre saiu na festa de São João das Arribas. Isto era um símbolo de guerra e agora faz parte de um símbolo de união entre as pessoas. Os pendões eram a marca do território. Então, em vez de andarem uns contra os outros, agora juntaram-se e uniram-se, que é a coisa mais linda do mundo, unir os pendões”.

O desfile reuniu estandartes das aldeias mirandesas e das regiões espanholas vizinhas. Um trabalho desenvolvido pela Associação da Língua e Cultura Mirandesa permitiu localizar muitos desses pendões, restaurá-los ou recriá-los, devolvendo-lhes o lugar que ocupam hoje nas celebrações da identidade mirandesa. E é assim que, desde 2015, este desfile se realiza anualmente em Miranda.
Na Festa dos Pendões, a presidente da Câmara de Miranda do Douro, Helena Barril, recordou que a iniciativa nasceu precisamente da necessidade de preservar um património que corria o risco de desaparecer. “Bem-haja o momento em que se iniciou este evento, que permite ir partilhando com o lado de lá essa comunhão. Dá-nos muita satisfação. Percebemos que é um dos fortes elementos identitários do território. Como tem essa relevância, também não poderíamos deixar, enquanto executivo, de estar a apoiar esta iniciativa e continuar a seguir o seu caminho. Isto une os povos e percebermos que temos muito a unir-nos que a separar-nos”.

Com 481 anos de história, apesar da riqueza patrimonial e cultural, Helena Barril admite que o principal problema do concelho continua a ser a perda de habitantes. “Neste momento falta população, à semelhança do que acontece em muitos territórios de Portugal, a perda da população nativa. Temos sentido, ao longo dos últimos anos, a vinda até nós de comunidades de imigrantes, o que também nos dá e reforça muito a esperança no futuro, mas gostaríamos também que houvesse da população nativa, que não se perdesse tanto essa população. Muito do trabalho que desenvolvemos também é para modernizar Miranda, trazer população até ao território, mas de facto para esse desidrato temos que também ter muito apoio do Governo Central”.
A Festa dos Pendões marcou apenas o início da Semana da Cultura Mirandesa, organizada para assinalar os 481 anos da elevação de Miranda do Douro a cidade, concedida por D. João III. Ao longo da semana decorrem concertos, exposições, apresentações de livros, recitais, espetáculos de dança, atuações dos Pauliteiros, música clássica, ópera e várias cerimónias institucionais.


