Ardemos mais do que aprendemos
Opinião

Ardemos mais do que aprendemos

  • 30 de Junho de 2026, 09:32

Esta semana será marcada por temperaturas extremas. O calor, alimentado por uma massa de ar subtropical e por um bloqueio atmosférico sobre a Península Ibérica, criará as condições perfeitas para que o risco de incêndio rural atinja níveis muito elevados. É um cenário que conhecemos demasiado bem. E, infelizmente, também sabemos o que costuma vir a seguir.

Todos os anos, por esta altura, repetem-se as imagens. As serras envoltas em fumo, populações em sobressalto, bombeiros levados ao limite da resistência humana e promessas de reformas, minutos de silêncio. Depois chega a chuva, o tema desaparece da agenda política e tudo fica à espera do verão seguinte.

Como é possível que um país que conhece tão bem o problema continue, década após década, a fracassar no combate à sua principal causa?

Portugal sempre teve verões quentes. Não digam que é culpa das alterações climáticas. Agravam o problema, sem dúvida, mas não explicam por que razão continuamos a arder mais do que aprendemos. Também não é por falta de tecnologia, de meios ou de dinheiro. O que continua a faltar é vontade política para atacar as causas em vez de apenas financiar as consequências.

Nos últimos anos ouvimos falar inúmeras vezes da chamada “indústria do fogo”. Durante muito tempo, essa expressão foi tratada como uma teoria conspirativa. No entanto, a realidade veio mostrar que existem, pelo menos, razões para desconfiar de alguns interesses instalados.

A operação “Torre de Controlo”, desencadeada no ano passado pela Polícia Judiciária, revelou suspeitas graves de cartel, manipulação de concursos públicos, favorecimento de empresas e superfaturação de contratos relacionados com os meios aéreos de combate aos incêndios. O Estado poderá ter pago muito acima do valor de mercado por serviços essenciais. Isto não significa, naturalmente, que os incêndios sejam provocados para alimentar esses contratos, mas significa que existe dinheiro a circular em abundância sempre que o país arde. E onde circula muito dinheiro público sem fiscalização eficaz, cresce inevitavelmente o risco de corrupção, favorecimento e desperdício. É precisamente por isso que a prevenção continua a parecer o parente pobre desta história.

Gastam-se centenas de milhões no combate, mas continua a faltar uma verdadeira política de ordenamento florestal, gestão do território, limpeza eficaz das matas, valorização económica da floresta e responsabilização de quem incumpre.

Durante anos optou-se por transferir grande parte da responsabilidade para os proprietários, impondo limpezas obrigatórias. Passado todo este tempo, é legítimo perguntar: os resultados justificam essa estratégia?

Também vale a pena recordar outra evidência incómoda, a de que, durante décadas, a capacidade da Força Aérea foi sendo substituída por um crescente recurso a empresas privadas de meios aéreos. As opções políticas podem ser discutidas, mas é legítimo questionar se o interesse público ficou realmente mais bem servido.

Entretanto, todos os verões assistimos ao mesmo ritual. A comunicação social acompanha minuto a minuto o avanço das chamas, os políticos visitam os teatros de operações, multiplicam-se os elogios aos bombeiros e promete-se que “desta vez será diferente”. Nunca é. Enquanto o combate continuar a ser muito mais rentável do que a prevenção, haverá sempre menos incentivos para resolver definitivamente o problema.

É evidente que nem todos os incêndios têm origem criminosa. Há negligência, acidentes, fenómenos naturais e também incendiários, mas também é evidente que um sistema que movimenta milhões de euros todos os anos deve ser escrutinado ao mais alto nível. Sem tabus. Sem receio de incomodar interesses instalados.

O calor desta semana passará. As temperaturas acabarão por descer. Mas, se nada mudar, as cinzas voltarão a cobrir o país, os discursos serão reciclados e as promessas regressarão ao arquivo onde permanecem há décadas.

Portugal não precisa apenas de mais meios para apagar fogos. Precisa, sobretudo, de apagar os interesses que continuam a alimentar um sistema onde demasiados lucram com aquilo que é uma tragédia para todos os outros.

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Carina Alves