A morte da empatia
Uma menina de oito anos morreu.
Segundo a investigação, foi morta pela mulher que partilhava a vida com o pai. E a motivação apontada pelas autoridades é tão desconcertante quanto o próprio crime. Ciúmes.
Há palavras que, quando colocadas ao lado de determinados acontecimentos, perdem o sentido.
Ciúmes.
É uma palavra pequena para carregar um peso tão grande. Porque os ciúmes pertencem ao universo das inseguranças dos adultos. Das relações que se desgastam, dos amores que terminam, dos egos que se confrontam. Nunca deveriam caber na mesma frase que uma criança.
Não porque uma menina tenha feito alguma coisa para os provocar, mas porque alguém, num processo mental que desafia qualquer consciência saudável, deixou de olhar para ela como uma criança.
É aí que começa o verdadeiro horror.
Nenhum ser humano nasce capaz de matar uma criança por ela existir. Antes disso acontece outra morte, silenciosa e invisível. A da empatia. A capacidade de reconhecer no outro alguém digno de proteção desaparece. A criança deixa de ser filha, deixa de ser inocência, deixa de ser vulnerabilidade. Passa a ser um obstáculo. Uma presença incómoda. Uma rival.
E quando isso acontece, perde-se uma das últimas fronteiras da humanidade.
Há muito que sabemos que o ser humano é capaz do melhor e do pior. A História ensina-o todos os dias. Construímos hospitais e câmaras de gás. Escrevemos declarações de direitos humanos e promovemos genocídios. Somos capazes de dar a vida por um desconhecido e de a retirar por motivos que a razão nunca conseguirá acomodar.
Talvez o maior erro seja acreditar que a barbárie pertence sempre aos outros. Aos monstros. Às personagens dos livros ou aos criminosos das séries televisivas.
Não.
A barbárie começa quando deixamos de reconhecer a humanidade de quem está à nossa frente.
Foi assim em todas as grandes atrocidades da História. Primeiro deixa-se de ver uma pessoa. Depois, tudo o resto se torna possível.
Neste caso, deixou-se de ver uma menina.
É isso que torna esta tragédia tão insuportável. Não apenas a violência do ato, mas a ideia de que uma criança possa ser olhada através do filtro da competição. Como se o amor de um pai fosse um prémio com apenas um vencedor. Como se um abraço dado a uma filha fosse um abraço roubado a outra pessoa.
O amor nunca funcionou assim.
Só o egoísmo acredita que o afeto é um território que se conquista eliminando quem o habita.
Perante um caso destes, multiplicam-se as perguntas. Como foi possível? O que leva alguém a fazer isto? Em que momento uma consciência se rompe ao ponto de transformar uma criança numa ameaça?
Talvez nunca encontremos respostas suficientes.
E talvez essa incapacidade seja uma forma de saúde moral.
Porque há crimes que uma sociedade não deve compreender totalmente. Deve investigá-los. Deve julgá-los. Deve puni-los. Deve estudá-los para tentar preveni-los.
Mas nunca deve conseguir olhá-los com normalidade.
O dia em que conseguirmos explicar serenamente porque alguém matou uma menina por ciúmes será o dia em que a explicação se terá tornado mais perigosa do que o silêncio.
Há acontecimentos que nos obrigam a recordar quem somos.
Ou, pelo menos, quem nunca podemos deixar de ser.
