Preço do leite em queda
Perante esta situação, os agricultores dizem que estão a trabalhar, apenas, para pagar as despesas que têm com a produção, não conseguindo amealhar qualquer rendimento. “Estou a viver com aquilo que ganhei há 30 anos atrás. Se isto continua assim vamos ter que fechar a porta, porque vamos gastar mais com a produção do que aquilo que nos pagam pelo leite”, lamenta António José Fernandes, um produtor de S. Pedro da Silva, no concelho de Miranda do Douro.
Esta posição é partilhada por António José Anes, que apostou no sector do leite há 30 anos. “Chegaram-nos a pagar o leite quase a 0,50 euros e este mês só já o pagaram a 0,34 euros. Se continuar a baixar, mais dia, menos dia temos que fechar a porta”, afirma este produtor de S. Pedro da Silva.
Tendo em conta que os adubos e as rações continuam a aumentar, os agricultores começam a fazer contas aos encargos que têm que suportar para fazerem a ordenha e alimentarem os animais. “Gasto 360 quilos de ração e 250 de aveia por dia só para dar de comer às 28 vacas que estão em produção. O adubo custa 27 euros o saco. Este ano já não vou adubar as terras”, garente António Fernandes.
António Anes diz mesmo que há muitos produtores a passar dificuldades financeiras para conseguirem suportar todos os encargos. “Fartamo-nos de trabalhar e chegamos ao fim do mês e não nos fica nada. Nunca senti tantas dificuldades como agora”, acrescenta o agricultor.
Na óptica de Sérgio Fernandes, um dos proprietários duma exploração mecanizada em Granja (Mogadouro), esta descida vertiginosa deve-se à especulação de mercado que fez subir o preço do leite cerca de 0,10 euros no início do ano. “Mesmo assim, esta descida não se justifica, tendo em conta o aumento dos custos de produção. Se fosse hoje talvez não tivéssemos feito o mesmo investimento”, acrescenta (ver reportagem na página anterior).
Dificuldades financeiras podem levar ao encerramento de explorações de produção de leite
Com a exploração completamente modernizada, Sérgio Fernandes afirma que esta é mais uma crise que os produtores vão ser obrigados a superar. No entanto, acredita que há explorações mais pequenas que serão obrigadas a encerrar, devido às dificuldades financeiras.
Esta posição é partilhada pelo presidente da Associação de Produtores de Leite do Planalto Mirandês, Gino Ribeiro, que associa esta descida do preço às dificuldades de escoamento do produto. Recorde-se que o leite produzido no Planalto é comprado por três empresas espanholas e pela portuguesa Lactogal, que já não estão a aceitar mais leite.
Os produtores dizem-se ainda abandonados pelo Ministério da Agricultura e denunciam que há subsídios relativos a 2007 que ainda não foram pagos. “Se os preços continuarem a baixar vamos ter que entregar as exploração ao ministro da Agricultura”, desabafa António Gino.

