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“A minha  relação  com  a  Câmara  não  foi  pacífica”

“A minha  relação  com  a  Câmara  não  foi  pacífica”
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  • 30 de Setembro de 2008, 13:18

Jornal Nordeste (JN) – Alegou motivos pessoais e profissionais para renunciar ao mandato de Presidente da Junta de Freguesia de Argozelo. No entanto, quais foram os verdadeiros motivos?
Luís Rodrigues (LR) – De facto, reconheço não ter apresentado os reais motivos que levaram à renúncia de mandato de Presidente da Junta de Freguesia de Argozelo
Nunca foi minha intenção provocar eleições antecipadas , pois a população estaria privada, durante um longo período, de serviços importantes para o normal desenvolvimento das suas vidas, para além de ficar submetida, num ano, a demasiados actos eleitorais, a um “circo” que indiscutivelmente muitos argozelenses estão fartos.
Também quis salvaguardar o grupo que lutou a meu lado, durante quase três anos, num período de conjuntura verdadeiramente difícil. Acreditem que é duro defraudar as expectativas da maioria da população de Argozelo. No entanto a dinâmica gerada entre Câmara e Junta de Freguesia, ao longo deste último ano encontrava-se demasiado degradada, não se vislumbrando nada de positivo para a freguesia.
Fui alertando a minha equipa, desde Dezembro último, para a necessidade de proceder à minha substituição, uma vez estar desconfortável na minha relação com a edilidade e, inclusivamente, via na minha saída, uma oportunidade de permitir aos que ficam fazer mais alguma coisa do que aquilo que com a minha gestão foi conseguido.

JN – Confirma que as relações institucionais entre a Câmara de Vimioso e a Junta de Freguesia eram más?
LR – Bem sei que os problemas entre a Câmara de Vimioso e a Junta de Freguesia de Argozelo não são de agora. Não me parece que o Sr. António Pimentão, na altura da mesma cor do Eng. Miranda, tenha tido mais facilidades do que eu. Aliás, tenho para mim que, desde sempre, as relações entre a CMV e a Junta de Freguesia de Argozelo nunca foram saudáveis e a minha relação política com o actual Executivo da Câmara é conhecida pela generalidade dos argozelenses.
Recordo ainda a relação política entre o Francisco Lopes e o Eng. Miranda e o José Sena com o Dr. José Rodrigues. Eu coloco-me no mesmo “fardo”, como Presidente da Junta! A minha relação com a Câmara não foi pacífica pela ocorrência de episódios de natureza diversa, dos quais não vou falar. Não contem comigo para fazer do pobre coitadinho, que alguém se encarregará de enterrar politicamente.
Digo apenas que entrei na política sem experiência, mas com uma certeza – não se deve confundir o plano pessoal com o plano político. Lamento que haja pessoas a viver da política que não partilham desse pressuposto, por mais experiência política que tenham, continuarão a alicerçar o seu caminho na cultura do medo, onde a réplica é vista como ameaça, como se o sistema feudal devesse sobreviver à democracia.

JN – Acha que as suas intervenções nas Assembleias Municipais, consideradas adversas à Câmara e à estratégia do PSD, pesaram neste mau relacionamento entre Câmara e Junta?
LR – Ao contrário do que possam dizer, tentei dignificar esse órgão que considerei de vital importância para o “esboçar” do caminho que poderia definir uma estratégia correcta para o concelho. Contudo, há que dizê-lo, ainda persiste uma cultura de medo, é algo cultural.
Não convém melindrar o Executivo Camarário, caso contrário pode haver retaliações desagradáveis. Fica a ideia que muitos elementos da Assembleia Municipal, nomeadamente Presidentes de Junta, mantêm um papel demasiado passivo, quando a sua idade e o próprio concelho exigem uma atitude pró-activa.

“A dinâmica gerada entre Câmara e Junta de Freguesia, ao longo deste último ano encontrava-se demasiado degradada, não se vislumbrando nada de positivo para a freguesia”

Recordo-me da “ponte dos ratos”. Numa das Assembleias referi que era altura de pensar na solução que passaria por retirar curvas ao traçado entre Vimioso e Carção, porventura mais bem aceite pelas Estradas de Portugal. Acham que alguém do Executivo Camarário e do PSD consideraram uma proposta válida? Aguardamos por mais um estudo, um e outro parecer e, quando não houver carros para circular, talvez a famigerada ligação seja executada.
Tentei, nas sessões em que estive presente, não me resignar e usar de todos os argumentos que pudessem contribuir para a definição de uma estratégia de desenvolvimento sustentável para Argozelo e para o concelho. Por exemplo, segundo os dados oficiais de 2001, o número de fogos, em Argozelo, representava 20 por cento no concelho de Vimioso.
Se os lugares da Câmara fossem distribuídos proporcionalmente, a esta freguesia caberiam 28 lugares. Actualmente, há um défice de 22 funcionários. Se fizer os cálculos, desde o 25 de Abril de 1974, a uma média de 750 euros mensais, aproxima-se dos 8 milhões de euros que foram gastos em pessoal pela CMV, canalizados para outras freguesias

JN – Ou seja, aquilo que não é gasto em funcionários deveria ser investido em Argozelo…
LR – Exacto. Era bom que os líderes de opinião das várias freguesias do concelho não esquecessem isso. Uma Câmara, cujo orçamento é praticamente dispendido em pessoal, onde se afirma como a maior entidade empregadora do concelho, despreza a freguesia mais populosa.
Quando acenam com maiores investimentos em Argozelo do que no resto do concelho não estão a ser correctos, não são democráticos. Pelos motivos apresentados, somente teriam razão de falar se investissem 5 vezes mais do que em qualquer outra freguesia. E agora perguntam-me: em Argozelo precisam de “tachos”? Felizmente nunca precisou, o que para muitos senhores que invejam esta freguesia não é fácil aceitar, mas os tempos são outros, a exigência é crescente e não é de agora a manutenção da coesão concelhia.
Já que não pagam em salários, que paguem com obras, definindo uma estratégia sustentada para Argozelo e assim o concelho fica a ganhar. Argozelo merece respeito, mas não o tem, porque há muita gente no concelho a desejar-nos mal e só se lembram que nós existimos na altura da campanha eleitoral.
Alguns estranham a minha saída, porque consideram haver obra feita, mas esquecem-se do prejuízo de décadas. Para bem da sobrevivência do concelho é importante que desejem o desenvolvimento desta terra, pois será aqui que sempre se localizará a maior fatia da população. As duas vilas têm de coexistir, sem excessos de protagonismo, sem complexos de inferioridade ou superioridade.

JN – Na sua opinião, que erros de gestão camarária mais afectaram Argozelo?
LR – Não se compreende como Argozelo, como vila, não tenha qualquer protocolo com a Autarquia, quer no plano da gestão dos recursos humanos, por descentralização, quer ao nível de transferências financeiras.
Devo acrescentar que, neste último ano, assistiu-se a um retrocesso vergonhoso e inaceitável, para além de não haver investimento feito pela Câmara, a edilidade tudo fez para ficar com os louvores das obras feitas pela Junta, como a rotunda do Calvário, as placas de sinalização urbana, as obras no posto da GNR, só para citar alguns.
E depois há o contrário, a obra das Minas, por exemplo, que dizem ser da responsabilidade total da Câmara, só se fez porque a Junta teve de aceitar a retirada das terras, com prejuízo no valor do imóvel. E o que a freguesia lucrou? Melhor ambiente, tudo bem, mas o projecto da Cortinha ficou parado e tem de ser alterado porque mudaram as cotas do terreno. Os de Argozelo são conhecidos por “não darem ponto sem nó” e “serem finos para o negócio”, mas ficam só com a fama, porque o proveito vai para outros.
Depois há os grandes investimentos como o Parque Ibérico de Natureza e as Águas Termais que serão fonte de elevado investimento por parte da Autarquia e que remetem Argozelo para segunda ou terceira linha. Já o disse, sempre que se mexe uma palha em Argozelo, o resto do concelho comenta e acha que se faz muito, para que nos habituemos às migalhas e outros fiquem com o miolo.

“Há que dizê-lo, ainda persiste uma cultura de medo, é algo cultural. Não convém melindrar o Executivo Camarário, caso contrário pode haver retaliações desagradáveis”

JN – Então concorda com a posição do seu antecessor, quando diz que é necessário mostrar “cartão vermelho à Câmara”?
LR – Acredito que há uma vontade crescente dos argozelenses em repudiar esta forma de gestão concelhia. Nós somos a freguesia mais penalizada, ninguém tenha dúvidas, mas tal não é a opinião do resto do concelho. Infelizmente muita gente abana a cabeça e acusa-nos de insurrectos e mal agradecidos. Mas Argozelo não tem culpa de ser a maior freguesia do Concelho, de ter a maior taxa de empregabilidade fora da Câmara, de ter perspectivas mais firmes em sobreviver aos ataques da desertificação e, apesar disso, ter, proporcionalmente, menor caudal de investimento.
A integração de candidatos de Argozelo na lista da Câmara já é uma regra que dificilmente será quebrada, mas não adianta eleger um vereador que depois fica dependente da vontade do Presidente da Câmara. Foi o que aconteceu ao Eng. António Oliveira.
Enquanto Argozelo não eleger, pelo menos, o vice presidente da Câmara, não será feita justiça com esta terra, nem vale a pena falar em eleições e em listas de candidatos. Concordo, em absoluto com o José Sena quando fala na necessidade de esquecer as divisões em Argozelo e mostrar união na hora de votar.
No início do meu mandato na Junta de Freguesia elaborei um relatório onde eram apontadas falhas na gestão da anterior Junta. Hoje teria centrado a minha atenção nas falhas da Câmara para com a Junta de Freguesia de Argozelo e talvez tivesse poupado muito tempo e esforço.

JN – E que falhas foram essas?
LR – Destaco três exemplos, entre muitos outros, que mostram a relação grosseira entre Junta de Freguesia e esta Câmara Municipal, que é incompreensível:
1) Sendo professor de profissão, nunca fui convidado, na qualidade de presidente da Junta, a participar nas visitas do Executivo Camarário à escola de Argozelo, nem devidamente informado das diligências efectuadas a este respeito. Dias houve, com a porta da sede da Junta aberta, o Sr. Presidente e Vice-Presidente da Câmara passaram e nem sequer pararam para, pelo menos, me cumprimentar;
2) O projecto das Eiras das Figueiras foi disponibilizado a um particular de Argozelo e nunca a Junta teve conhecimento do mesmo. Esse mesmo projecto foi alterado à vontade do particular. Nunca a Junta teve tanta importância. Como se isso não bastasse, tivemos que ser nós a resolver a ocupação de um terreno que se considerava público e que estava a dificultar o avanço dos trabalhos.
3) Nunca, durante os quase três anos de coabitação, foi marcada qualquer reunião para definir uma estratégia ou projecto para Argozelo, cuja iniciativa tenha partido do Executivo Camarário. Todos os encontros eram provocados por mim, depois de confirmada a agenda do outro lado. Todas as reuniões, com vista a colaboração institucional, eram vistas como uma perda de tempo e, a dada altura, eram evitadas.

“Argozelo merece respeito, mas não o tem, porque há muita gente no concelho a desejar-nos mal e só se lembram que nós existimos na altura da campanha eleitoral”

JN – Pondera ser candidato em 2009?
LR – Continuarei a prezar os valores da verdade, humildade e solidariedade que tão bem soube herdar da educação que tive. Analisando toda a conjuntura actual, apenas posso dizer que não contem comigo para entrar em jogos de poder cujo objectivo é manter uma gestão no concelho que o conduz à extinção. Estarei sempre ao lado do meu povo, lutando por ele, procurando que Vimioso seja mais verdadeiro, humilde e solidário com Argozelo.
Aproveito para dizer aos argozelenses que ano de 2009 ficará marcado por inaugurações de obras há muito terminadas e reforço nas actividades para as massas.
No cumprimento do calendário eleitoral tentarão ludibriar os argozelenses com discursos estudados e repetir-se-ão promessas cada vez mais antigas, copiando manifestos eleitorais que vão atropelando mandatos, sem respeito pelos. Será muito difícil encontrar candidatos dispostos a entrar no processo eleitoral, com promessas para a terra, pois sabem que ficam em “saco roto”.

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