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Pela Calçada de Alpajares

Pela Calçada de Alpajares
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  • 23 de Setembro de 2008, 09:31

Os atrasos verificados não foram motivados pela distracção, desorientação ou cansaço dos participantes, mas porque é imprescindível parar para apreciar a paisagem que, naquele lugar, assume contornos entre o “belo e horrível,” como o descreveu o poeta Guerra Junqueiro.
O percurso é sinuoso entre a localidade de Poiares, no concelho de Freixo de Espada à Cinta e a ribeira de Mosteiro. A calçada de Alpajares, também conhecida por Calçada do Diabo, é de origem romana ou medieval e percorre o sopé de um monte numa extensão de 800 metros que se inicia no Castro de São Paulo e vai até à ribeira de Mosteiro. Ao todo, são 28 curvas num percurso feito em pedras de xisto que são travadas em forma de patamar.
Todo o trajecto da calçada está dentro do Parque Natural do Douro Internacional, que, só por si, chama a atenção do caminhante para uma avi-fauna riquíssima, onde os olhos, com um pouco de sorte, podem contemplar em pleno habitat natural aves rupícolas que dominam os píncaros da maciços rochosos circundantes. Aves como o grifo, águia de Bonelli, abutre do Egipto, falcão peregrino, bufo-real ou a cegonha negra são algumas das espécies dominantes, apesar de parte delas estarem ameaçadas de extinção.

Participantes constatam riqueza natural do Parque Natural do Douro Internacional

Estes e outros valores naturais tornam a Calçada de Alpajares num dos mais bonitos percursos do rio Douro. No local é possível apreciar o aspecto geológico, já que são notórias as marcas deixadas por movimentos tectónicos com vários milhões de anos. Dobras e sedimentos de quartzito construíram muralhas que mais parecem autênticos bastiões defensivos, o muro da Avalona, uma formação geológica que se assemelha a um troço da Grande Muralha da China.
A comunidade científica e, dado os fósseis de espécie vertebradas encontrados no vale, estima-se que aquele local tivesse sido coberto por um imenso oceano há vários milhares de milhões de anos, situação que deixou marcas na paisagem.
Do ponto de vista patrimonial, naquela região há importante vestígios pré- históricos e históricos, já que a calçada está referenciada desde o século XVII. A necrópole de São Paulo e a Fraga do Gato, onde é possível ver uma figura rupestre que ao que tudo indica será de uma lontra, entre outros imóveis.
O património imaterial também tem um papel importante naquela zona, já que são muitas as lendas e narrativas que lhes estão associadas.
Diz a sabedoria popular que o Diabo construi uma ponte em apenas uma noite para as pessoas poderem passar a troco da sua alma. O “demo” não conseguiu os seus intentos e a ponte foi destruída. O Terreiro das Bruxas é outro lugar do percurso sobre o qual se diz que as feiticeiras ali dançavam em noite de lua cheia completamente nuas.
Agora a ideia passa por dotar a percurso da Calçada de Alpajares com outros motivos de interesse para os apreciadores de passeios ao ar livre. Para tal, o município local tem em curso uma candidatura a fundos comunitários com vista à criação de um geo-museu ao ar livre.

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Redação