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As Aldeias

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  • 9 de Setembro de 2008, 09:08

Retiro estas conclusões à medida que vou passando pelas aldeias do Nordeste, seja com mais ou menos velocidade seja no decorrer das diárias caminhadas. À fase de casas feias, desconfortáveis, desprovidas de artefactos e impregnadas de sujidade sucedeu-se uma outra de crescimento nas exigências reflectidas no aumento de casas de banho e saneamento, água canalizada e electrificação.
O poder autárquico é o grande artífice dessa fase a gerar ainda outra representada por aquisição de frigoríficos, arcas congeladoras, sistemas de aquecimento e televisões, muitas televisões. No mês de Julho, numa breve deslocação à aldeia da maior castanheira à face da Terra, desculpem o exagero, em passo estugado fui a Zido onde não ia há largos anos, de resto nunca tive afinidades electivas ou outras com essa aldeia.
Vi casas reconstruídas, vi casas novas de porte apreciável, uma delas recordou-me o famoso restaurante Casa Solla devido à superfície em vidro, todas mostravam antenas de televisão, em três ou quatro mais pequenas e humildes exibiam-se parabólicas.
Vejam lá meus senhores: num recôndito aglomerado na falda da Serra da Coroa, os seus habitantes têm “O mundo a seus pés”, apesar de talvez desconhecerem quem foi Orson Welles realizador do extraordinário filme com esse nome. Em Zido, em Lagarelhos, em Santalha, em Milhão, em Guadramil, em Ousilhão, em Montouto o mundo entra pela parabólica trazendo novidades de topo e de tomo a mulheres e homens de todas as condições e formações.
Em Zido, dizeres inscritos numa placa colocada na parede dessa casa em parte envidraçada, informam da existência e vivência de um capitão se não erro, nascido em 1875, e falecido em 1950. A inscrição suscitou-me curiosidade, procurei informações e disseram-se ter o Capitão ajudado muito rapaz a arranjar colocação na guarda e na polícia, tirando-os da condição de quase servos da gleba e proporcionando-lhe melhores condições de vida. Mais me disseram: além de homem generoso, obteve a mais alta condecoração militar portuguesa pelas provas de destemor, entrega e espírito de sacrifício durante as campanhas de África, certamente, no início do século XX. Na altura teria a categoria de sargento.
Um sargento nos alvores do século passado ser condecorado com a Torre e Espada era coisa rara, muito rara! Nestes tempos do politicamente correcto não é de bom-tom abordar o tema da guerra, muito menos das campanhas coloniais. Mas a História é assim mesmo e devemos ter orgulho em todos quantos pelos seus feitos rebentam a casca do anonimato. O poeta faça o favor de desculpar a imitação, sendo ele poeta estou desculpado.
As aldeias estão mais limpas e cuidadas, as pessoas vivem melhor debaixo de todos os aspectos, mesmo os mais carentes têm melhores condições em relação aos desgraçados do antes 25 de Abril, por isso devemos estar gratos aos fautores do acto libertador, apesar de todos os erros e desvarios cometidos. Não só por isso, também por nos terem proporcionado a vinda do Mundo até nós, dando aos das aldeias a possibilidade de terem acesso à informação plural, apesar do isolamento e das falácias da propaganda.
E, como é evidente, esta realidade trouxe uma vincada mutação no sentir e pensar destas gentes. Talvez a “Torre e Espada” do Sr. Capitão nada lhes diga, mas a Clara de Sousa e a Manuela Moura Guedes de lábios de salsicha ou o “orelhas” dos romances em procura do Graal chamado dos Santos dizem-lhe muito. A meu ver tanta informação está a torná-las mais machuchas. Ou não?

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Redação