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Ifanes: o outro lado da raia

Ifanes: o outro lado da raia
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  • 2 de Setembro de 2008, 10:00

Aqui fala-se mirandês. Os visitantes são alertados para a língua materna deste povo logo à entrada da localidade, onde o nome da aldeia está escrito nas duas línguas faladas em Portugal.
A cerca de 10 quilómetros da localidade espanhola de Moveros, as pessoas preferem manter-se ligadas às suas tradições e à “lhéngua”. As relações entre os dois povos resumem-se, apenas, a algumas trocas comerciais.
“Há habitantes de Ifanes que vão a Moveros comprar mercearia e carne, ao passo que os espanhóis vêm cá comprar antiguidades, nomeadamente utensílios agrícolas de outros tempos”, afirma o presidente da Junta de Freguesia de Ifanes, Orlando Vaqueiro.
Mas nem sempre foi assim. Longe vão os tempos em que havia agricultores de Ifanes com terrenos do lado de lá da raia, nomeadamente junto à localidade de Brandilanes.
Actualmente, esta freguesia mirandesa é, apenas, o local de passagem do fluxo de espanhóis que se desloca para Miranda do Douro.
Na memória de algumas pessoas permanecem histórias de contrabando que se vão perdendo no tempo. “Lembro-me de ter ido um dia com uma senhora a Moveros comprar uns biscoitos e umas galletas e, perto de Constantim, apareceram dois guardas que nos queriam prender, porque diziam que era contrabando. Eu ainda era garota e não ganhei para o susto”, conta Flora Garcia, uma habitante de 70 anos.
Também Orlando Vaqueiro recorda uma história triste que resultou na morte de uma pessoa de Ifanes quando tentava passar a fronteira.

Construção de um centro hípico é um dos projectos da Junta de Freguesia para fomentar o turismo

Os tempos mudaram e a agricultura é, actualmente, a principal fonte de receita para os cerca de 150 habitantes que resistem nesta localidade. “Aquilo que mais produzem é o cereal para alimentarem o gado, pois o forte é a carne de bovino e de ovino”, realça o autarca.
No que toca ao património, o monumento mais emblemático é a igreja matriz que remonta ao século XVII, as capelas de S. Bartolomeu e de S. Roque, bem como vários cruzeiros e fontes antigas que se encontram espalhados pelo termo da freguesia.
A festa em honra de S. Sebastião é um marco para a freguesia e ainda reúne muita gente. “Desde pequena que canto o ramo ao S. Sebastião. Hoje faço os roscos (doce típico) que são usados para fazer o ramo”, conta Flora Garcia.
Já o turismo é ainda um filão por explorar. Orlando Vaqueiro acredita que a construção de um centro hípico poderá ser o primeiro passo nesta área. “Os cavalos estão a ganhar força, já há pessoas a criar cavalos e também já foram feitos alguns passeios nesta freguesia. Neste momento, a Junta disponibilizou um terreno para um campo de treino, que poderá evoluir para um centro hípico”, salienta o autarca.
No entanto, a recuperação da Igreja matriz, que se encontra em obras há cerca de seis anos (ver página 6), é a prioridade. “O orçamento não estica e estamos a canalizar os recursos financeiros para a Igreja, por isso abdicamos de fazer algumas infra-estruturas desportivas que vão ter que esperar”, concluiu Orlando Vaqueiro.

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Redação