Sobre o Reinado de Scolari
Da parte que me toca, nunca simpatizei com este senhor, nem como pessoa, nem como treinador; pelo que, na hipótese da escolha ter sido através de escrutínio, seria a minha última preferência, caso fosse obrigado a exercer tal direito cívico. Contrariamente, os milhares de portugueses que o viam, há seis anos, como o D. Sebastião do clube de todos nós, a selecção nacional de futebol, achavam que a sua contratação era positiva, porquanto se tratava de alguém com créditos firmados, uma pessoa com provas dadas – referindo-se ao título de campeão do mundo, em 2002, pela selecção do seu país.
Pois, quem esteve minimamente atento a tal evento, e se a memória não for perturbada por essa distância temporal de oito anos, há – de lembrar-se, com certeza, em que condições é que essa taça foi erguida. Como não nos podemos esquecer que o “sucesso” da nossa selecção, quer no Euro 2004, quer no mundial 2006, nada tem de glorioso, nem, muito menos, de transcendente.
Na primeira competição – cujo título nos fugiu por incompetência do treinador (nem o meu amigo Germano perdia duas vezes com a Grécia!) -, por sermos o país organizador, ficámos automaticamente qualificados. Na segunda, à semelhança do que aconteceu com o Euro 2008, calhámos numa série em que os adversários tinham apenas como principal rótulo essa apreciável característica de serem “bons rapazes”. A fase final desta prova foi modesta (4.º lugar), se considerarmos que, face ao valor da equipa, composta por jogadores de indiscutível valor mundial – à excepção, claro, do guarda – redes, poderíamos ter feito muito melhor.
Se fizermos um esforço para comparar o trabalho do seleccionador brasileiro com o realizado pelo seu homólogo Humberto Coelho, quando, no Euro 2000, fez o brilharete de conseguir um honroso 4.º lugar – e só não fomos mais longe porque houve a habitual subversão da tão apregoada “verdade desportiva” -, sem esta louca “cumplicidade” do povo, a euforia colectiva, dar-nos-emos conta de que, se nos lembrarmos que a consumação da glória esteve ali tão perto, não sendo possível, em parte, pelo orgulho obstinado do, até aqui, funcionário público mais bem pago do país, o “mérito” do primeiro tende a relativizar –se.
Outro aspecto que os pró – scolarianos apontam como positivo na passagem de Scolari é a manifestação do sentimento patriótico por parte dos portugueses. Na verdade, é estranho que Scolari, uma pessoa pouco afável, arrogante, de modos grosseiros, com mau feitio (bem vincado no lamentável episódio da agressão a um jogador da equipa adversária), e com certa dificuldade em se expressar verbalmente, consiga persuadir e agitar as massas, qual pastor de uma seita religiosa, na condução do seu rebanho, sendo este, por natureza, pouco dado à exteriorização de estados de contentamento e à exibição de símbolos pátrios.
É, pois, a partir desta análise de conjunto, e com base em pressupostos que moldam a minha convicção, que não consigo ver o consensualmente bem – amado Scolari, senão como uma metáfora social, uma personagem – tipo da obra vicentina, por simbolizar uma realidade quotidiana cada vez mais presente. Scolari é, em meu entender, o mais acabado e fiel exemplo de que o sucesso nem sempre é o resultado da competência. Scolari é, como produto de marketing, ressalvando, naturalmente, as devidas proporções, um Zé Cabra do futebol.
E se, durante o reinado de Scolari, nunca estive ao lado da maior parte dos meus compatriotas, no que diz respeito ao sentimento de empatia em relação ao homem que o país estranhamente consagrou, também nunca com eles partilhei esse desconfortável estado de alma por eles experimentado, na sequência do amargo de boca originado pela fraca prestação da selecção – nomeadamente neste último compromisso -, porque partidário da ideia de que, na vida, a euforia como a desilusão dependem das expectativas que criamos, face aos objectivos que nos propomos e aos patamares de exigência que estabelecemos.
Quanto à inevitável questão do “fantasma de Scolari”, o que se pode ter como garantido é que, tendo Carlos Queiroz como futuro seleccionador, e sendo-lhe dadas as mesmas condições que ao seu antecessor, e havendo coragem para acabar com os lobbies dos clubes – factor reconhecidamente apontado, desde sempre, como o principal obstáculo à “coesão do grupo” -, esse fantasma da “insubstituibilidade” se dilua por si só.

