Plásticos
Nos anos sessenta, quando o “boom” do plástico fez a sua entrada num Portugal cinzentão, as nossas vidas nunca mais foram as mesmas. Tachos, alguidares, malgas, bacias e outros não menos funcionais utensílios para todo-o-serviço viram-se substituídos pelos seus congéneres fabricados em resinas polissinteticas. No que se conseguiu, de forma triunfal, a erradicação parcial de barros, zincos, latas e afins. E assim foi afanosamente crescendo a indústria dos polímeros, para alegria de todos quantos aspiravam por uma modernidade demasiadamente desejada para não ser bem recebida.
O plástico veio e ficou. Gostou dos ares, deu-se bem e deu-se a todos quantos alegremente quiseram adoptá-lo. E tanto que, alastrando em diferentes variantes, o plástico, no seu sentido mais simbólico, se constituiu como preâmbulo da globalização. Plástico – desde o tupperware aos hambúrgueres, passando pelos fazedores de opinião – passou a designar um conceito estandardizado do “já feito”, para consumo imediato. Sem esforço e sem recriação.
Nos anos noventa, incubada nesse fenómeno psicossociológico já com duas décadas, chamado telenovela brasileira (hoje, por preguiça ou ignorância, diminutivado de “novela”), nascia uma fórmula linguística pequena no tamanho mas concentrada no significado. “Tudo bem” (“tudo” para os amigos) fazia assim a sua entrada num mundo cada vez mais estruturado sobre padrões enlatados. Realidades como o “pronto a comer”, o “pronto a pensar” e o “pronto a dizer” foram-se aplicando tão convictamente na missão de nos tornarem a vida facilitada, que se ganha a frequentemente a sensação de que criámos um mundo onde nos desconstruímos progressivamente e onde as palavras e as acções vão perdendo o seu valor transmissor.
O que dizemos quando dizemos “tudo bem”? Não dizemos coisa alguma, mas a nossa atitude mecanizada grita de eloquência. “Tudo bem” é uma fórmula tanto mais vazia quanto nela cabe tudo. Como um armazém povoado de produtos virtuais de onde toda a força existencial foi retirada.
“Tudo bem” é o papaguear circunstancial de um modo impessoal que une – pela semelhança anónima – muitos milhares de pessoas. Não vale pensar naquilo que, de facto, não temos para dizer. Nem é preciso. “Tudo bem” é tão recorrente que não necessitamos de nos lembrar de que nem tudo está, de facto, bem. Porque nem sequer é isso que está em causa.
Ninguém quer saber realmente se está tudo bem quando dispara a pergunta. E a ninguém importa que nem tudo esteja bem quando engatilha a resposta. Interessa, apenas, a troca de uma senha sem gosto, onde indivíduos se reconhecem na persistência de uma fórmula tão gasta quanto vazia.

