Vindima chega mais cedo e setor continua em crise

Campanha marcada pela antecipação, mas também por dificuldades crescentes para quem produz

09 set. 2026, 08:30

Este ano, em Trás-os-Montes, as uvas não quiseram esperar pelo calendário. O calor acelerou a maturação e levou os produtores a antecipar uma vindima que, em algumas vinhas, chegou quase um mês mais cedo do que o habitual.

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É o caso da Quinta das Corriças, em Vale de Salgueiro, no concelho de Mirandela, em que se começou a vindimar mais cedo, mas onde se perspetiva uma boa produção. “Nunca vindimei tão cedo, nem me lembro. Estamos adiantados quase um mês”, conta Telmo Moreira, produtor de vinho.

A antecipação da vindima foi, contudo, uma consequência direta das condições climatéricas. Telmo Moreira diz ter encontrado diferentes níveis de maturação dentro da própria vinha, com algumas castas já próximas do limite, enquanto outras permaneciam verdes. “As plantas estão um bocadinho desorientadas no tempo”, afirma, defendendo que os produtores têm de estar cada vez mais atentos e preparados para se adaptar às novas condições climáticas.

Telmo Moreira com o filho durante a vindima

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A decisão de avançar mais cedo para a vindima procurou, assim, acompanhar a evolução da maturação e evitar que determinadas uvas ultrapassassem o ponto considerado ideal.

A campanha terminou há poucos dias na propriedade localizada em Vale de Salgueiro, depois de ter arrancado cerca de três semanas antes do habitual. Apesar da antecipação, as perspetivas são positivas. O produtor estima que a pequena empresa possa atingir cerca de 40 mil litros de vinho, um volume superior ao registado no ano passado, sobretudo devido a uma maior produção de vinhos brancos.

Na adega, os trabalhos relativos ao rosé e ao branco já estão praticamente concluídos. Telmo Moreira espera uma boa qualidade e destaca, em particular, o carácter dos rosés, dos brancos e do Tinta Amarela, a casta que considera ser uma das principais imagens de marca da Quinta das Corriças. “Estamos a fazer vinhos muito idênticos àquilo que é a nossa produção clássica”, explica o produtor, que assume uma preferência por vinhos de perfil mais tradicional e ligado ao território.

Um território marcado pelo granito e pelo xisto

A identidade dos vinhos da Quinta das Corriças, defende Telmo Moreira, está profundamente ligada ao território onde as vinhas estão implantadas. A propriedade encontra-se numa zona em que diferentes tipos de solo convivem a poucos metros de distância. “De um lado nós temos o granito, a Norte, e a Sul temos o xisto. Só a estrada é que os divide”, descreve.

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Na sua perspetiva, esta proximidade entre os dois tipos de solo contribui para a personalidade dos vinhos. Segundo o produtor, o granito confere “frescura e mineralidade”, enquanto o xisto contribui para vinhos “com maior estrutura”. É sobretudo na Tinta Amarela que essa combinação ganha expressão, tornando-a, considera, num vinho “diferenciador”.

Falta de mão de obra e queda do preço da uva

É precisamente na dimensão económica que o produtor encontra uma das maiores ameaças ao futuro da viticultura transmontana. A falta de mão de obra continua a agravar-se. Ao mesmo tempo, os custos de produção aumentaram, enquanto o preço pago pelas uvas caiu.

Telmo Moreira estabelece uma comparação entre o passado e a situação atual. Segundo o produtor, “anteriormente a uva branca podia ser paga a cerca de 60 ou 70 cêntimos por quilo, enquanto atualmente há produtores a aceitar valores na ordem dos 25 a 30 cêntimos”.

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No sentido inverso, o custo da mão de obra aumentou. “A geira está no dobro e o quilo da uva veio para metade”. A isto junta-se o “aumento dos preços dos adubos e de outros fatores de produção”, reforça.

Durante esta campanha, a Quinta das Corriças contratou cerca de 15 pessoas

Na sua perspetiva, esta combinação está a tornar a atividade economicamente insustentável para muitos viticultores e a contribuir para o abandono e arranque de vinhas em várias zonas de Trás-os-Montes.

O produtor defende, por isso, medidas específicas para os territórios de baixa densidade populacional, considerando que a agricultura continua a desempenhar um papel fundamental na manutenção da população e da atividade económica nas aldeias.

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Menos consumo e excesso de vinho nas adegas

Às dificuldades na produção junta-se, segundo Telmo Moreira, a quebra do consumo de vinho.

“A redução da procura está a deixar muitas adegas com vinho armazenado e a pressionar ainda mais os preços”, disse. Considera ainda que a perda de poder de compra dos consumidores e o debate em torno dos efeitos do consumo de álcool na saúde “contribuíram para uma redução significativa da procura”.

Critica ainda outro aspeto. “É impossível competirmos com os preços de vinho importado”. Na sua opinião, a concorrência baseada no preço está a prejudicar particularmente regiões como Trás-os-Montes e o Douro. “Hoje vão pelo barato, não têm poder económico, vão pelo barato”, afirma.

É neste contexto que reclama uma intervenção do Governo, nomeadamente através de medidas fiscais e de apoio à produção. Entre as propostas que defende está “a redução ou suspensão temporária do IVA aplicado ao vinho, 13% não se justifica”, como forma de aliviar os custos e permitir uma maior capacidade de concorrência.

As marcas do incêndio que avançou de Valpaços para Mirandela

A vindima deste ano ficou também marcada pelas consequências do grande incêndio que deflagrou no final de julho, em Valpaços, e que rapidamente se estendeu ao concelho de Mirandela, chegando ainda a Vinhais e Macedo de Cavaleiros. As chamas obrigaram ao reforço do dispositivo de combate e atingiram várias localidades, deixando um rasto de destruição numa área extensa de Trás-os-Montes.

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Foi neste contexto que a Quinta das Corriças viu parte da sua propriedade ser atingida. Telmo Moreira estima ter perdido “entre dois e três hectares e meio de vinha, além de áreas de vegetação, que integravam um ecossistema que levou mais de duas décadas a construir”,  partilha.

Vinha secular que foi rodeada pelas chamas

O produtor é particularmente crítico da forma como o combate ao incêndio foi conduzido. Na sua perspetiva, “parte dos danos poderia ter sido evitada se tivesse sido permitida uma intervenção mais direta junto de algumas áreas da propriedade”, disse. Telmo Moreira afirma ainda que tentou combater as chamas por meios próprios. “Uma das zonas da vinha conseguiu resistir precisamente por ter sido previamente lavrada”, frisa.

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