Vilares da Vilariça procura futuro em quem chega de novo

O projeto Aldeia-Transição quer acolher até 28 pessoas migrantes, em Vilares da Vilariça, no concelho de Alfândega da Fé, criando condições para que encontrem casa, trabalho e um lugar na comunidade. Promovida pela iLocal, a iniciativa nasce de um trabalho de vários anos e procura transformar dois desafios, o despovoamento do interior e a integração de quem chega a Portugal, numa oportunidade comum.

22 out. 2026, 07:30

Em Vilares da Vilariça, no concelho de Alfândega da Fé, o futuro pode começar à porta de uma casa, numa conversa entre vizinhos ou na aprendizagem de um ofício que faz falta à aldeia. É nesse encontro entre pessoas, trabalho e território que nasce o Aldeia-Transição, um projeto que pretende fazer da integração de pessoas migrantes uma das respostas possíveis ao despovoamento do interior.

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A iniciativa é promovida pela Inteligência Local (iLocal), associação que, desde março de 2022, procura criar condições para regenerar a aldeia. Agora, o objetivo é acolher, de forma faseada e acompanhada, até 28 pessoas migrantes, maioritariamente integradas em agregados familiares, até 31 de dezembro de 2027.

Segundo Filipe Jeremias, cofundador e CEO da iLocal, a ideia parte de uma constatação simples. Portugal enfrenta, ao mesmo tempo, a perda de população em muitos territórios do interior e dificuldades no acolhimento e na integração de pessoas migrantes. “Aquilo que nos surgiu é que um desafio podia ser a solução do outro”, explicou, destacando que não se trata de fazer chegar pessoas a uma aldeia e esperar que tudo se resolva por si. Ou seja, é necessário criar “um programa integrado, pensado e planeado”, capaz de evitar que quem chega fique entregue à sua sorte.

É nessa intenção que assenta o Aldeia-Transição. A ideia não é apenas trazer novos habitantes, mas construir as condições para que possam encontrar um lugar onde viver, trabalhar e participar na vida coletiva.

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A proposta, Aldeia-Transição, foi selecionada pela Fundação Calouste Gulbenkian no âmbito da Iniciativa Gulbenkian Integração, entre 286 candidaturas. O financiamento é assegurado em 90% pela Fundação e em 10% pelo Município de Alfândega da Fé.

Uma casa para começar de novo

Por agora, segundo Filipe Jeremias, o projeto ainda vai entrar na fase de seleção dos participantes. “A escolha terá em conta um perfil” definido pela organização, nomeadamente as “competências e as necessidades” de formação relacionadas com as áreas profissionais em que pretende trabalhar. “Ainda não sabemos quem são estas pessoas”, admitiu o responsável. Poderão vir de diferentes partes do mundo, desde que correspondam ao perfil necessário para o programa.

Depois, o primeiro passo é a habitação. Segundo Filipe Jeremias, a chamada Casa-Transição será um espaço de “acolhimento temporário”, com capacidade “para receber até sete pessoas de cada vez”. Ao contrário do que o número global do projeto poderia sugerir, “as 28 pessoas não chegarão todas em simultâneo”.

A primeira fase será organizada “por grupos”, começando com cerca de sete participantes. Cada pessoa poderá permanecer na Casa-Transição durante quatro meses, período em que deverá receber acompanhamento para encontrar uma solução habitacional posterior. “Depois do quarto mês, a pessoa terá de encontrar sítio para habitar juntamente com a nossa ajuda”, esclareceu Filipe Jeremias.

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A casa, um ponto de partida, não uma solução definitiva, prevê criar estabilidade suficiente para que cada participante possa depois dar os passos seguintes com maior autonomia.

Trabalho para ganhar autonomia e para responder ao que falta

Depois da casa, vem o trabalho, sendo que “a autonomia financeira é um dos três pilares do Aldeia-Transição”, a par da habitação digna e da construção de uma relação de pertença à comunidade. A iLocal identificou necessidades de mão de obra em setores como a agricultura e a construção civil e a proposta passa por “preparar os participantes para estas áreas”, através de dois laboratórios de capacitação. Um deles é o ARCA — Aprendizagem em Reabilitação e Construção Aplicada. O espaço de formação “deverá funcionar também como uma estrutura capaz de prestar serviços ao território”, sendo que “a ideia é responder à escassez de profissionais em atividades como a carpintaria, a eletricidade e a canalização, entre outras ligadas à construção e à manutenção”.

A ambição é que a aprendizagem não termine numa competência adquirida ou num certificado. A organização pretende criar, com as pessoas envolvidas, uma “cooperativa que permita desenvolver atividade económica nas áreas da construção civil e da agricultura”.

Assim, o projeto procura aproximar duas necessidades, a de quem precisa de construir uma vida profissional em Portugal e a de um território onde determinados serviços se tornam cada vez mais difíceis de encontrar.

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Pertencer também se aprende

O projeto também prevê que há uma língua a aprender, hábitos a descobrir, relações a construir e códigos quotidianos que nem sempre são evidentes para quem chega de fora. O terceiro eixo do Aldeia-Transição centra-se assim na comunidade e na pertença. Entre as medidas previstas está um programa de padrinhos e madrinhas. A ideia é aproximar os novos residentes das pessoas que já vivem na aldeia ou no concelho. A designação pode sugerir uma responsabilidade familiar ou material, mas, segundo Filipe Jeremias, é sim alguém disponível “para conversar, acompanhar uma caminhada, ajudar na aprendizagem informal do português ou partilhar conhecimentos sobre a vida local”.

Quanto à escolha, essa é feita pelos participantes, que, depois de encontros com as pessoas locais, deverão identificar com quem sentem maior proximidade.

Segundo Filipe Jeremias, o programa deverá incluir ainda sessões de língua portuguesa, atividades culturais e oficinas dedicadas aos saberes e sabores locais. Fazer pão, preparar compotas, produzir enchidos ou queijo são algumas das possibilidades.

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População está preparada para receber migrantes

Antes da apresentação pública do projeto, que aconteceu na quarta-feira da semana passada, a iLocal reuniu com a população para explicar a proposta, introduzir o tema da migração e responder às dúvidas. E Filipe Jeremias reconheceu que uma parte da comunidade apoia a ideia, sobretudo por sentir que a aldeia precisa de gente e de novas dinâmicas. “A casa destas pessoas é a aldeia e nós temos de cuidar muito bem de saber quem metemos dentro da nossa casa”, afirmou, explicando assim a importância atribuída ao processo de seleção.

Para que o projeto funcione, os habitantes não vão ser meros espectadores. A sua participação “deverá contribuir para ajustar o projeto às características da aldeia” e para “criar relações” que possam durar para além do período formal de acolhimento.

Caminho começou antes da migração

O Aldeia-Transição não é o primeiro projeto da iLocal em Vilares da Vilariça. Desde 2022, a associação tem promovido iniciativas que procuram mobilizar a população, atrair pessoas e imaginar novas formas de vida e de atividade económica no território.

As Jornadas na Aldeia, dedicadas ao empreendedorismo regenerativo, desafiaram participantes a transformar necessidades locais em oportunidades. O festival Circ’Bô levou o circo contemporâneo e outras expressões culturais a diferentes espaços da aldeia. Houve também encontros para pensar os futuros possíveis de Vilares da Vilariça, envolvendo a comunidade na reflexão sobre o território.

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