O mel da próxima primavera começa agora

António Teixeira começou na apicultura com duas colmeias, em 2015. Hoje, entre Portugal e a Suíça, mantém dezenas de enxames e uma marca de mel criada em homenagem ao avô.

26 ago. 2026, 08:00

Em Macedo de Cavaleiros, António Teixeira prepara agora as colónias para o inverno, mas também para a produção da próxima primavera. Este ano, marcado pelas ondas de calor, houve uma quebra significativa na produção.

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No apiário de António Teixeira, o mel da próxima primavera começa a ser produzido muito antes de as abelhas encherem os favos de néctar. Em pleno verão, quando ainda falta tempo para a próxima colheita, o apicultor já está a tratar das colónias, a combater a varroa, a reforçar a alimentação e a preparar as condições para que os enxames sobrevivam ao inverno.

É um trabalho contínuo, que exige antecipação e paciência. "O manter, o tratar bem as colmeias, ou seja, o cuidar delas agora vai determinar o arranque na primavera", explica António Teixeira.

Natural de Macedo de Cavaleiros, onde mantém os seus apiários, o apicultor divide atualmente a vida entre Portugal e a Suíça, onde é emigrante. Regressa ao país com frequência e conta com a ajuda da esposa para acompanhar as colmeias. O projeto começou, porém, de uma forma muito mais pequena e sem qualquer tradição familiar.

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"Comecei na apicultura em 2015, por uma questão de gosto. Desde criança sempre gostei, sempre tive interesse, sempre disse: um dia vou ter abelhas", conta. Começou com apenas duas colmeias. O gosto pela atividade e os primeiros resultados fizeram o resto. "A gente começa a gostar, começa a ver o resultado, dá-nos assim um determinado prazer e continuamos."

Um ano começa antes da primavera

Para quem olha de fora, a produção de mel pode parecer concentrada nos meses quentes. Para o apicultor, porém, o ciclo nunca para. "O mel da próxima primavera começa a ser construído agora", resume António.

Durante o inverno, há praticamente uma pausa na produção. Existem algumas florações, como o medronheiro e, em determinados locais, o alecrim e outras plantas nativas, mas em quantidade insuficiente para permitir uma colheita comercial. Ainda assim, essas fontes de alimento podem ser importantes para as abelhas.

Por isso, é essencial deixar reservas de mel nas colmeias e, quando necessário, fornecer alimentação adicional.

Este ano, essa tarefa tornou-se particularmente exigente. As sucessivas ondas de calor fizeram desaparecer rapidamente a floração e reduziram a disponibilidade de néctar e pólen.

"Houve muito pouco alimento, a floração secou muito rápido, pouco néctar", explica.

O trabalho do apicultor passa agora por controlar a varroa, garantir alimentação suficiente para o inverno, manter a higiene das colmeias e preparar a estratégia para a próxima época.

O combate à varroa é uma das principais preocupações. Trata-se de um pequeno ácaro parasita que afeta as abelhas e que tem de ser controlado através de tratamentos específicos.

"O tratamento da varroa é o mais importante e a alimentação para elas terem bastantes reservas para o inverno", sublinha.

António já tem as colmeias tratadas e está também a reforçar a alimentação. Algumas colónias mais pequenas foram transferidas para núcleos, caixas de menor dimensão que permitem às abelhas conservar mais facilmente o calor durante os meses frios.

Uma marca com memória de família

A paixão pelas abelhas acabaria por dar origem a uma marca própria: Avô Miguel. O nome é uma homenagem ao avô materno, uma figura marcante na infância de António.

"A marca surge porque eu tinha uma ligação sentimental com o meu avô. Recordo-me bastante dele", explica. O avô era, além disso, "o único agricultor" que António conhecia na infância. Tinha cabras e um rebanho e vivia na zona da Serra da Gardunha, no concelho do Fundão, de onde é a família materna.

António cresceu em Trás-os-Montes, mas passava férias com o avô. Foi nesses momentos que nasceu também a ligação à natureza e ao mundo rural. "Eu gostava muito da companhia dele, dos momentos que passei com ele e das conversas que tínhamos", recorda.

António Teixeira com a esposa

A marca começou por ser uma experiência, mas a procura levou António a querer transformar o projeto numa atividade mais estruturada. Criou as redes sociais, registou a marca e começou a apostar na divulgação. "Começámos assim a fazer uma publicidade, criar Instagram, registei a marca. É para ser mais a sério agora." E os resultados começaram a aparecer. "A procura cresce e, como cresce a procura, tem que crescer tudo o resto."

De 40 colmeias para um novo crescimento

Atualmente, António tem cerca de 15 colmeias e núcleos no apiário que está a desenvolver. Noutro local mantém mais seis ou sete. Já chegou, contudo, a ter perto de 40 colmeias.

Agora, o objetivo é voltar a crescer. Uma das mudanças recentes foi a transferência das colmeias da zona do Azibo para a aldeia de Ferreira. A alteração não foi casual. Uma análise realizada ao mel produzido no ano passado revelou uma predominância de castanheiro, com 59%, e de silva, com 39%.

A partir desses resultados, António procurou uma localização com maior presença de castanheiros. "Queria ter um mel monofloral de castanheiro", explica.

O resultado só poderá ser conhecido no próximo ano. A natureza, lembra o apicultor, não pode ser controlada. "Vamos ver. Não mandamos na natureza." Se as condições forem favoráveis, a próxima colheita permitirá voltar a analisar o mel e perceber se o novo local conseguiu aproximar o produto do objetivo.

Atualmente, o mel da marca é multifloral, precisamente porque tem duas grandes predominâncias: castanheiro e silva. O objetivo de conseguir um mel monofloral de castanheiro dependerá da floração e das condições meteorológicas.

O tempo dita o resultado

A apicultura, tal como a agricultura, está profundamente dependente do estado do tempo. E 2026 tem sido um ano particularmente difícil para António. "Este ano é o pior ano", afirma, comparando-o com a melhor campanha, registada há cerca de três anos, quando tinha aproximadamente 40 colmeias e conseguiu retirar mais de uma tonelada de mel.

A diferença é significativa. "Isto é porque o mel não é todos os anos igual. É como a agricultura em si: se a meteorologia não corre de feição, a produção diminui."

As ondas de calor tiveram um impacto direto nas colónias. A primeira, recorda, surgiu logo no final de maio. Em períodos de temperaturas extremas, o apicultor precisa de tomar medidas para reduzir o aquecimento das colmeias e garantir água às abelhas.

Pode colocar materiais isolantes sobre as colmeias, como placas de cortiça ou outros materiais adequados, e assegurar a existência de água nas proximidades. O objetivo é evitar que as abelhas tenham de se afastar demasiado das colónias para encontrar água e ajudar a manter condições favoráveis no interior das caixas.

Este ano, além da quebra na produção, os custos também aumentaram. António estima que possa ter tido cerca de um terço de despesas adicionais. E por isso, vender o mel acaba por ser um dos maiores desafios.

"O maior desafio é mesmo a venda do produto", afirma. Na sua perspetiva, o conhecimento necessário para tratar das abelhas, criar novos enxames e produzir mel está relativamente disseminado entre os apicultores. Encontrar mercado para o produto nacional é que pode ser mais difícil.

Uma das razões apontadas é a concorrência de mel importado, vendido a preços muito inferiores. António refere a entrada de produtos provenientes de países como a China e antecipa também maior concorrência de produtos da América Latina. "Alguns provavelmente serão de boa qualidade, nós não podemos falar mal de todos, mas grande parte deles de qualidade duvidosa e chegam a preços muito, muito baratos", considera.

A marca Avô Miguel aposta sobretudo na venda por encomenda. A presença em feiras tem sido reduzida, também devido à distância e à condição de emigrante do produtor. No entanto, as redes sociais têm funcionado como uma importante montra para o negócio.

"Felizmente, as redes sociais têm dado sucesso, estão a funcionar bem", afirma António.

Aponta que, em Portugal, o preço está estabilizado há cerca de três anos: 8,50 euros por quilo e cinco euros pela embalagem de meio quilo. António admite que gostaria de aumentar o preço, sobretudo tendo em conta o trabalho e os custos associados à produção.

"Penso que os 10 euros por quilo num mel de qualidade não é exagerado de todo", defende. Na Suíça, onde vende grande parte da produção, pratica já um preço superior.