Sair para aprender música e voltar para oferecer cultura

A carreira do brigantino Francisco Morais Fernandes, que saiu de Bragança, aos 18 anos, para estudar no Porto e, depois, na Suíça, leva-o aos grandes palcos da Europa. O coração, esse, continua em Bragança.

Créditos: Vincent Beaume

29 jul. 2026, 07:45

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Francisco Morais Fernandes é um pianista brigantino que conquistou a Europa, mas que sonha fazer crescer Bragança pela música. Tem 27 anos, já atuou em alguns dos mais prestigiados festivais internacionais de música contemporânea, foi o primeiro português a receber o Prémio Fritz Gerber e trabalhou com alguns dos maiores compositores da atualidade. Ainda assim, quando fala do futuro, o maior sonho não passa por uma nova sala de concertos ou por mais um prémio. Passa por Bragança.

Num tempo em que tantos jovens partem e poucos regressam, o pianista brigantino faz questão de dizer precisamente o contrário. “É obrigatório, depois dos 18 anos, para quem quer continuar a estudar música, sair de Bragança, mas isso não é uma sentença para não voltar”, assinalou o pianista.

Foi preciso sair. A carreira levou-o ao Porto, à Suíça, a França e, nos próximos meses, fá-lo-á rumar aos Estados Unidos. Ainda assim, Francisco Morais Fernandes nunca deixou de imaginar um futuro onde todo esse conhecimento pudesse regressar à cidade onde tudo começou, Bragança.

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Hoje, aos 27 anos, o pianista é um dos nomes portugueses em maior afirmação na música contemporânea. Trabalha diretamente com compositores, participa em estreias absolutas de novas obras, integra projetos internacionais e soma distinções que o colocam entre os jovens músicos mais promissores da sua geração. No entanto, basta falar de Bragança para perceber que continua a ser esse o lugar onde se sente em casa. “Adoro estar aqui. Foi um sítio onde vivi muitos anos, onde conheço muita gente, onde tenho a minha família e quero continuar a desenvolver atividade aqui”, adiantou, assumindo que o sucesso só faz sentido se também puder ser partilhado com a terra que o viu crescer.

 

Uma paixão que nasceu cedo

A história de Francisco Morais Fernandes na música começou ao mesmo tempo que a do próprio Conservatório de Música e Dança de Bragança. O jovem tinha apenas cinco anos quando entrou na escola, precisamente no ano em que a instituição abriu portas. “Desde aí, claro, não parei até agora”, rematou.

O piano apareceu desde o primeiro dia. Mais tarde experimentou também o trompete, na Banda Filarmónica de Bragança, mas nunca permitiu que o piano deixasse de ocupar o lugar principal, um instrumento que, obra do destino, lhe saiu em sorte.  “Não o escolhi por imposição dos meus pais. Creio que foi uma conjugação de vários fatores e de haver essa possibilidade no conservatório”, vincou, descrevendo que sente o instrumento como parte de si.

 

Sair para aprender

Concluído o ensino secundário, o destino foi o Porto. Na música, segundo explicou, nem sempre se escolhe uma cidade. Escolhe-se um professor. E foi assim que ingressou na ESMAE, onde estudou com Pedro Burmester, o professor que tanto ambicionou ter.

Terminado o curso, o mundo parou para o músico, assim como parou para todos nós. Com a pandemia veio o regresso temporário a Bragança, mas foi precisamente aí que começou a preparação para um novo desafio, a Suíça.

A escolha pelo país voltou a acontecer pelo mesmo motivo que o fez rumar ao Porto. Francisco Morais Fernandes queria estudar com Antoine Françoise, músico profundamente ligado à interpretação da música contemporânea, algo que sentia que queria “desenvolver”.

Na Hochschule der Künste Bern concluiu um Mestrado em Performance e, mais tarde, um Mestrado Especializado em Música Contemporânea, aprofundando uma área que acabaria por definir toda a sua carreira.

 

Quando os compositores ainda estão sentados ao nosso lado

É precisamente na música contemporânea que Francisco Morais Fernandes encontra aquilo que mais o entusiasma. Não quer dizer que tenha deixado para trás Mozart ou Beethoven, muito pelo contrário, mas porque existe algo que nenhuma outra época permite, conversar diretamente com quem escreve a música. “Com estes compositores temos contacto direto. Trabalhamos com eles em peças novas, quase como se estivéssemos a dialogar através da música”, contou.

Essa proximidade transforma completamente o processo criativo. Mais do que interpretar uma partitura, sente que participa na construção da própria obra. “Sinto também que quase ajudo a desenvolver estas novas formas de expressão artística”, destacou ainda o pianista.

E é essa colaboração que o levou a trabalhar com alguns dos compositores mais importantes da atualidade e que recentemente culminou na estreia de Epilogues, obra escrita especialmente para si, por Fernando Strasnoy, durante a Académie do Festival d’Aix-en-Provence.

 

Músico brigantino com o compositor Fernando Strasnoy no Festival Aix-en-Provence

Uma carreira que atravessa fronteiras

Nos últimos anos, o currículo foi crescendo de forma consistente.

Concertos com a Lucerne Festival Contemporary Orchestra, atuações com a Remix Ensemble, presença em festivais internacionais e colaborações com alguns dos maiores nomes da música contemporânea fizeram do brigantino um nome cada vez mais reconhecido.

Em 2024 tornou-se o primeiro português distinguido com o Prémio Fritz Gerber, atribuído pela Lucerne Festival Academy, num reconhecimento reservado apenas a três jovens músicos por edição. “Todos estes prémios são quase um símbolo de qualidade no currículo. Quando enviamos currículos, garantem qualidade”, admitiu.

Recebendo o Prémio Fritz Gerber no Festival de Lucerne com Phoebe Bognár e Santiago Villar Créditos: Patrick Hürlimann

Ainda assim, mais importante do que a distinção, segundo sublinhou, foram as oportunidades que daí nasceram. “A distinção permitiu-me tocar na Lucerne Festival Contemporary Orchestra e também a solo. Foram oportunidades fantásticas”, recordou.

Pouco tempo depois chegaria outra conquista, a seleção para a Académie do Festival d’Aix-en-Provence, em França, onde trabalhou diariamente com Pierre-Laurent Aimard, Clara Iannotta, Marco Stroppa e outros grandes nomes da criação musical contemporânea. “Tínhamos um ecossistema musical enorme e de altíssima qualidade à volta”, referiu sobre os dias passados em França.

 

“Quero trazer tudo isto para Bragança”

Apesar da dimensão internacional da carreira, Francisco Morais Fernandes nunca fala em abandonar definitivamente a cidade. É precisamente na região que gostaria de aplicar muito do que aprendeu. “É um interesse meu desenvolver nova atividade aqui em Bragança”, destacou, assinalando que a ideia é ajudar a criar oportunidades e ajudar ainda os músicos transmontanos a ter espaço para mostrar o seu trabalho. “Não é apenas preciso trazer músicos de excelência a Bragança, mas também dar palco aos músicos transmontanos, e há cada vez mais. É necessário dar-lhes um palco e ajudar a que as pessoas tenham contacto com isso”, referiu o pianista.

Francisco Morais Fernandes reconhece que ainda é difícil viver exclusivamente da música em Bragança, mas recusa olhar para isso como uma fatalidade. Acredita que a cidade está a mudar. E acredita, sobretudo, que a mudança depende também de quem parte. “É importante adquirir essas capacidades fora e depois voltar e trazê-las connosco”, frisou.

 

Um sonho simples

Para o futuro, o brigantino não fala de grandes orquestras, de prémios ou de um palco específico. “Não costumo ter esses grandes planos a longo prazo”, admitiu, assumindo que o “grande sonho” seja, talvez, trazer esse tipo de programação que tem feito em França e na Suíça para Bragança e dar oportunidade aos brigantinos de terem acesso a este tipo de música.

Depois de conquistar alguns dos maiores palcos da Europa, o sonho que mais o entusiasma continua a caber dentro da cidade onde, há mais de duas décadas, entrou pela primeira vez no Conservatório de Bragança.

Para Francisco Morais Fernandes, partir nunca significou deixar Bragança para trás. Significou apenas aprender fora para, um dia, poder regressar e ajudar a construir uma cidade onde a cultura tenha cada vez mais espaço para crescer.

Masterclass aberta ao público no Festival Aix-en-Provence