Produtores de azeite preocupados com seca prolongada e altas temperaturas

Mais do que os picos de temperatura, associações do setor e produtores alertam para a persistência das ondas de calor e para a ausência de arrefecimento durante a noite

06 ago. 2026, 08:29

As altas temperaturas e a seca prolongada estão a deixar os olivicultores preocoupados. Depois de se registarem, em 2025, quebras de produção, relacionadas com as alterações climáticas, são numerosos os produtores que temem que o cenário se repita.

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É o caso de João Gonçalves, jovem produtor de azeite no vale da Vilariça. Parte dos seus olivais são de sequeiro e por isso dependem exclusivamente da chuva para serem regados.. Uma condição que dificulta ainda mais a campanha em anos mais seco. A maior preocupação, afirma, é a incerteza quanto às condições climatológicas, estimando que a produção possa sofrer quebras na ordem dos 20%.

“Tem sido um ano muito difícil por causa do calor. A maior parte dos olivais que temos nesta zona raramente são regados, o que também dificulta. Por exemplo, eu tenho um olival de sequeiro e tenho um olival que foi atingido pelo incêndio no ano passado e parece  iguais, porque o calor é tanto que elas estão todas secas”, disse, acrescentando que a situação fica ainda mais complicada por não “mandarem nos preços do azeite”.

“Quem manda no preço do azeite é Espanha, e no sul  também têm passado dificuldades. No inverno tiveram cheias malucas que deram muito cabo da azeitona, agora têm o calor extremo e, por isso, prevemos um ano difícil e com quebras de produção, que é algo complicado. Ainda não há valores exatos, mas talvez algo para cima dos 20-30%.”

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Questionado sobre a disponibilidade de água para regadio, João Gonçalves garante que, no caso da sua exploração, não existem problemas de abastecimento. Graças à Barragem de Vilares, em Santa Comba, diz que nunca lhes faltou água, nem mesmo durante o período dos incêndios.

Ainda assim, reconhece que a realidade é diferente noutras zonas do concelho, como Santa Justa, onde os agricultores enfrentam maiores dificuldades no acesso à água para rega. O jovem produtor acredita que a futura barragem entre Samões e Freixiel poderá ajudar a colmatar essas carências, permitindo reforçar o regadio numa área que, até agora, tinha escassa disponibilidade de água.

Cátia Afonso é outra produtora da região. No seu caso, investiu no Vale da Vilariça precisamente pelas condições hidroclimáticas que a região oferece. É proprietária da Oliv8, exploração dedicada ao cultivo da variedade de azeitona Arbequina, uma das mais utilizadas na olivicultura intensiva devido à sua elevada produtividade e à qualidade do azeite que produz.

A exploração segue o modelo de agricultura em sebe, um sistema de plantação de alta densidade em que as oliveiras são dispostas em linhas contínuas, semelhantes a sebes. Este método permite a mecanização da colheita e uma maior eficiência na gestão da exploração.

Apesar do microclima ser favorável nesta área, as condições climatológicas “são sempre uma preocupação constante”, contou, frisando que  “se não for falta de água, é pelo facto de vir fora do tempo, porque muitas das vezes, na altura da floração, tem vindo chuva que não ajuda muito a nossa produção.”

Ao contrário de João Gonçalves, a produtora e empresária garante que para já “os indicadores são positivos”. “Obviamente que o mês de setembro, quando vêm aqueles granizos, como têm vindo os últimos anos, são sempre uma preocupação, porque podem estragar a produção”, disse, referindo que ainda é cedo para se fazer uma avaliação sobre a campanha deste ano.

A mesma preocupação é partilhada por Isabel Roios, representante do azeite Sobral Pastor, produzido em Vila Flor e no Cachão, concelho de Mirandela. De produção biológica e assente em métodos tradicionais, a marca tem raízes que remontam a 1730.

Apesar de considerar que ainda é cedo para fazer previsões sobre a campanha, Isabel Roios admite que as temperaturas elevadas não favorecem a cultura da oliveira. Explica que o calor acelera a maturação da azeitona e alerta que, caso se juntem episódios de chuva e vento nas próximas semanas, parte da produção poderá cair antes da colheita.

Isabel Roios espera, por isso, que as condições meteorológicas evoluam de forma favorável aos agricultores.

 

O impacto do calor na produção de azeite

 

Mais do que os picos de temperatura, associações do setor e produtores alertam para a persistência das ondas de calor e para a ausência de arrefecimento durante a noite, fatores que podem agravar o stress hídrico das oliveiras e comprometer o desenvolvimento do fruto.

“Mais que este grande aumento de temperaturas o prolongar é ainda mais preocupante.  Portugal, no início de julho, já contava com mais ou menos 59 dias e cerca de seis onda de calor e portanto com temperaturas elevada. Mas mais preocupante que isso é o não arrefecimento noturno, o que leva a uma grande perda por evapotranspiração da água no solo. Claro que este impacto é muito maior naquilo que são os olivais em sequeiro, os olivais regados têm a possibilidade de compensar através da dotação de rega e portanto não tem um impacto tão significativo”, explicou Gonçalo Moreira, gestor da OLIVUM -    Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal.

Nesta altura do ano, as oliveiras atravessam uma das fases mais sensíveis do seu ciclo de desenvolvimento. Segundo Gonçalo Moreira, durante o mês de julho decorre o crescimento da azeitona e o endurecimento do caroço, processo que prepara o fruto para a posterior acumulação de gordura. "Esta fase, tendo muito calor, pode condicionar aquilo que é produtividade, o calibre da azeitona e a sua capacidade depois de enchimento em gordura”, explicou acrescentando que a falta de água vai fazer com que “os estomas” da oliveira vão “fechando e reduzindo a sua atividade.”

Apesar do impacto que as condições meteorológicas podem ter nesta fase, o gestor da OLIVUM considera que ainda é prematuro retirar conclusões sobre a campanha deste ano. "Ainda não temos elementos suficientes para quantificar a produção ou sequer para prever a campanha, é muito cedo. Faltam muitos dias ainda podemos ter chuvas no final do verão, pode haver chuvas no princípio do outono", salientou, acrescentando que a associação continua a acompanhar a evolução da situação, sobretudo nos olivais de sequeiro.

No que toca a pragas e doenças que possam afetar a colheita. Gonçalo Moreira afirma que não foi reportada “nada de significativo ou fora do normal para um ano de alta qualidade.”

 

A qualidade conquista novos consumidores

 

Apesar da produção variar de ano para ano, a qualidade dos azeites que se produzem no país e na região, são motivo de animo para os olivicultores. João Gonçalves afirma que a região é “muito conhecida pela qualidade do azeite” e vai mais longe considerando que seja  “o melhor azeite do mundo”.  “Continua a haver muitos olivais antigos e acho que é isso que faz a qualidade do azeite, as oliveiras antigas produzem melhor azeitona e melhor azeite”, frisou.

A aposta na qualidade do azeite parece refletir-se também nas escolhas dos consumidores. Cátia Afonso explica que, atualmente, a maioria dos clientes é portuguesa, embora espere que a abertura de novas unidades hoteleiras na região atraia um público mais diversificado e contribua para dar maior visibilidade aos produtores locais.

A mesma perceção é partilhada por Isabel Roios, que considera que os consumidores estão cada vez mais atentos à qualidade do produto. "As pessoas já não ligam tanto ao valor, querem qualidade", afirma. A produtora destaca ainda que o azeite da região tem vindo a conquistar mercado dentro e fora do país, com exportações para França e presença em espaços como o Mercado do Bolhão, no Porto. "As pessoas vão conhecendo, depois telefonam e fazem as encomendas", refere.

Também Gonçalo Moreira da OLIVUM garante que Portugal é dos países que mais exporta devido à qualidade do azeite que oferece. Uma qualidade que está diretamente relacionada com a azeitona e a “forma como chega ao lagar”.

Em 2025, apesar de se terem registado quebras a rondar os 50%, a qualidade manteve-se. Isto porque houve “muito poucas, ou praticamente, não houve doenças, nem pragas”, explicou o responsável, acrescentando que esse fator permitiu que o fruto chegasse ao lagar  azeitona “muito sãs” garantindo um azeite de “altíssima qualidade”.

“Portugal é o país número um no mundo em que à volta de 98% do seu azeite é classificado como virgem e virgem extra. Portanto, nós em Portugal não temos um problema de qualidade do azeite. A questão é que a qualidade está sempre muito dependente da sanidade com que a azeitona chegue ao lagar. Portanto, temos que ver como é que vai correr o ano, podemos ter alguma doença, podemos ter algumas pragas que se possam instalar mediante aquilo que são as condições climatéricas, se cai muito a temperatura, se passamos a ter muitas umidades, se vamos ter chuva, o aparecimento de algumas moscas ou as condições ideais para o desenvolvimento de algum fungo”, disse.

Para o responsável da Associação é ainda “muito cedo” para determinar o que quer que seja em relação à campanha deste ano, nomeadamente porque “o campo é sempre muito dinâmico.”

Ainda assim, Gonçalo Moreira acredita que a qualidade do azeite português “é sempre altíssima”.

Para Gonçalo Moreira é precisamente essa consistência na qualidade que explica o forte desempenho de Portugal nos mercados internacionais. “Sendo um país claramente exportador, porque consumimos menos de metade daquilo que nós produzimos, a nossa altíssima qualidade e esse reconhecimento permite-nos valorizar [o azeite] e faz com que tenha uma muito boa aceitação por outros mercados, como o italiano, o brasileiro e também o espanhol”, afirmou.

O responsável acrescenta que a exportação portuguesa é sustentada não apenas pela quantidade produzida, mas também pela qualidade do azeite. “No hemisfério norte, somos o primeiro país a entrar em campanha. Portanto, somos o primeiro país a ter azeite e ainda por cima de altíssima qualidade. Isso permite-nos ser um país claramente exportador cuja contribuição para a balança comercial continua a aumentar tendo ultrapassado os 1500 milhões de euros.”

Na mesma linha, Gonçalo Moreira sublinha que essa valorização já se reflete no desempenho económico do setor. “Entre o ano de 2012 e 2022, Portugal aumentou a sua capacidade de produção e de exportação em 12 vezes, mas o seu valor em 18”, concluiu.

 

Relação qualidade - preço

 

Quando se trata de campanhas agrícolas é, praticamente, impossível não ter em consideração o fator monetário. Com a produção afetada ou até mesmo quando existem alterações no mercado mundial o preço do azeite vai variando.

Essa oscilação é sempre importante para quem, ao longo do ano, passa horas a dedicar-se ao que cultiva para ganhar o seu.

Gonçalo Moreira, deixa claro que o mercado não diz “apenas” respeito ao azeite produzido em Portugal, mas sim ao mercado mundial que olha, cada vez mais, para este produto como “promotor de saúde” um fator que tem vindo a refletir-se na oscilação dos preços.

“Portugal é autossuficiente em azeite, portanto não tem problemas. Se nós quisermos não importar uma gota pode-se fazer, mas obviamente que os nossos preços estão dependentes daquilo que é a existência de azeite no mundo e na sua procura.

O azeite é a melhor gordura do mundo para a nossa alimentação e já existem muitos países, como os Estados Unidos, que começam a reconhecer os benefícios desta gordura. Estes países, que não são tradicionalmente produtores e consumidores, olham para o azeite como um produto que lhes vai permitir longevidade e qualidade de vida,  que lhes vai proteger a saúde cardiovascular. Isso traz valor acrescentado ao produto”, explicou, acrescentando que por estes motivos “estão dispostos a pagar mais”.

Com o consumo a crescer em mercados que tradicionalmente não produziam nem consumiam azeite, como os Estados Unidos, O Brasil, a Austrália, o Chile e até o Japão, Gonçalo Moreira defende que a evolução dos preços dependerá cada vez mais da capacidade de resposta da produção mundial. O responsável lembra que a produção continua fortemente concentrada na Bacia do Mediterrâneo, apesar do surgimento de novos países produtores, e sublinha que, sem um aumento significativo da área de olival, a disponibilidade de azeite poderá não acompanhar o ritmo da procura.

“Tudo está sempre dependente da oferta e, portanto, da quantidade de azeite que os produtores têm para aquilo que é a demanda e o consumo, que está neste momento claramente a aumentar noutros países. E, portanto, é aqui que estará a produção do preço”, concluiu.